Tinha dito a mim mesmo que havendo inúmeros capas negras a usar da sua experiência [essa sim, útil], explicando ao mais desconfiado dos ignorantes o que é a Praxe, não iria também eu, passar por essa situação.
Ora foi precisamente por ignorância, que me vi com a necessidade de deixar umas palavras relativas à celeuma patética que se erige em torno das praxes, e especialmente às infelizes afirmações que acabei de ouvir de um tão popular Miguel de Sousa Tavares. Lamentavelmente doloroso.
Em primeiro lugar, não posso deixar de lamentar o triste desfecho dos cinco cidadãos, e assim envio as maiores condolências às famílias.
E de seguida, [para não fugir ao tema], umas das tragédias desta ‘Odisseia Praia do Meco’, é achar-se que o problema é a Praxe.
Não se deve gerar um pensamento fundamentalista a favor ou contra as Praxes, muito menos discuti-lo de forma exaltada, debaixo de uma tragédia.
Sou péssimo para ensinar, tenho consciência disso, mas posso tentar.
Para os menos informados, todo o ritual aplicado nas praxes, assim como a própria etnografia das vestimentas (vulgo trajes), têm os seus conceitos, que diga-se, nobres. Debaixo de um traje e capa negra, vive a justiça do princípio da não discriminação, afinal a sua criação em Coimbra, ensina-nos que entre trajados, não existem classes subordinadas, dissemelhanças de cultura, distinção de país, ou mesmo desníveis financeiros. Todos são iguais.
Relativamente aos rituais utilizados, sempre visionados por órgãos hierarquicamente superiores, [Directores de Praxe, Director de Curso, Tribunal de Praxes, Associação de estudantes], têm a seu cargo entre outras responsabilidades, promover uma verdadeira integração na comunidade académica assim como recusar acolhimento ou apoios a acções que põem objectivamente em causa a liberdade e a dignidade humana.
Ingenuamente julguei ser esta matéria assente, mas como aparentemente não é, eu repito;
‘As práticas de humilhação e de agressão física e psicológica com carácter fascista’ [Dr. Mariano Gago], não são Praxes. O ‘Bullying institucionalizado’ [Dr. Marinho e Pinto], não são Praxes. O exercício masturbatorio de um poder, não são Praxes.
Os excessos podem porventura ocorrer nas Praxes, assim como acontecem na nossa vida, no entanto aquele (não tão pequeno) grupo de pessoas, que ao estilo de Miguel de Sousa Tavares, Pacheco Pereira, entre os demais, têm atacado desmesuradamente as Praxes académicas, apontando-as como sendo directamente responsáveis pelo desaparecimento dos cinco jovens na Praia do Meco, estão a entrar no semelhante e ignóbil raciocínio de criticar os homens ou mulheres no seu género, porque um dia alguém traiu.
O conceito de «Praxes», «Homens» ou «Mulheres», são absolutamente distintos de «Praxes abusivas», «Homens infiéis», e «Mulheres adúlteras».
Por fim, julgo inteiramente assombrosa esta capacidade que os fundamentalistas tapados de um peso ideológico, apinhados de ignorância quanto ao tema, caracterizam erroneamente as Praxes á luz dos últimos acontecimentos mediáticos; quando ainda este ano, despontaram ‘Praxes solidarias’, em que ofereceram alimentos a famílias carenciadas, pintou-se igrejas em mau estado, melhorou-se prédios danificados, e benfeitorias a bairros problemáticos são tão somente banalizadas. Esta hipocrisia é extrema e desnecessária.
Um Caloiro, um Pato, um Doutor, um Veterano, um Director de Curso, um Dirigente associativo, um estudante, um cidadão, eu, Ivo Almeida.
PS: Quanto á responsabilidade jurídico-criminal, relembro que nem provado está que o cenário seja resultante de alguma Praxe, para não dizer especificamente que todos maiores, estavam no local voluntariamente.















