O lado bom de não saber quando a vida acaba, não saber se estarei aqui na próxima primavera, é eu poder brincar ao imortal neste momento, e sem culpa alguma.
Estamos a amamentar um mundo indesejável. Os nossos apetites têm vindo a obliterar todo e qualquer valor imprescindível a uma sociedade fraterna. As nossas elites embriagam-nos com elocuções inflamadas, que nos concebem sôfregos do prazer. Terroristas dos nossos gozos. Discursos galvanizadores têm-se destapado como o perigo dos últimos 50 anos.
- O desporto transformou-se no lugar onde o despautério e ofensas pessoais são toleráveis demonstrações de vigor.
- Na política, sub-roga-se o interesse nacional ao oportunismo e habilidades vantajosas, soltando um incomensurável espaço para o revanchismo crónico.
- Mesmo a religião, propaga hoje um requintado efeito bélico, dilacerante para a nobreza do conceito.
Carecemos urgentemente de líderes que saibam apartar-se da atitude dos liderados.
Basta do líder que clama de veias dilaceradas o nome de um clube, partido, ou herói, porque hoje temos ânsia de uma elite que acima de proteger as suas cores, considere germinar consensos.
Não por si, por nós. Por todos.
A busca da felicidade é desumana, e até Dalai Lama (14º) escreveu sobre esse esforço inócuo. Hoje, passados imensos anos de tal sapiência, ainda acrescento que ninguém quer ser feliz pelos motivos certos.
Fantástico eu sei, dois erros só numa frase, não me agoira grande texto mas assim como assim, é mais um desafogo.
Existe hoje a vontade frenética da perfeição, do resultado histórico, do tropeçar na simbiose perfeita, e ser o mais feliz do mundo. O coração grita por um lugar ao sol todos os dias, e como é cada um de nós que o atura, é mesmo melhor dar-lhe quanto antes. Nada menos que uma coroa, nada menos que um castelo. Essa história de o construir a dois, pedra a pedra, é para trolhas, e por isso mais vale investir na prospeção de mercado que perder tempo em obras. Vai no fim, ainda alguém a embarga. Os diamantes brutos são para vender a peso, e depois logo se arranja aquele fio que é mesmo a nossa cara.
Tenho para mim, que nesse raciocínio perro, há paradigmas que lhes escapam. Ainda não entenderam que a minha perfeição é diferente da tua, e ambas se constroem, ou não serão elas nossas, nem sequer perfeitas. Sejam descartáveis com a sopa, ou com as máquinas fotográficas. Não com as pessoas.
O que mais valoro nos génios é a sua capacidade de ser intemporal, e Dalai Lama foi inquestionavelmente de uma grandeza ímpar nesse sentido. Do despautério todo que acima referi, o Profeta termina o meu texto como o que mais o surpreendia; ‘o homem perder a saúde para juntar dinheiro, e depois, perder o dinheiro para recuperar a saúde’.
A lógica continua a mesma, seja em assuntos profundos a que Dalai Lama se referiu, quer em caprichos como eu escrevi.