junho 19, 2017

Pedrógão Enorme

Ad inicium, tenho de manifestar o meu solene pesar pelas inúmeras famílias que enfrentaram, enfrentam e enfrentarão o terror nos próximos anos. Os acontecimentos em Pedrógão Grande experimentam uma violência extrema quase sem precedência equitativa no nosso país.
O meu sofrimento está com as famílias de todas as vítimas, a par do meu agradecimento aos bombeiros e demais agentes que se sensibilizaram e colaboram das mais variadas formas no combate a este imenso martírio.


Para contextualizar devidamente a tragédia de Pedrógão Grande, é necessário esclarecer que teve mais vítimas mortais (62!) do que os últimos seis principais atentados terroristas na Europa juntos. (12 em Berlim, mercado de natal, Dezembro; 8 na Ponte Westminster em Londres, Março; 4 em Estocolmo, Abril; 1 nos Campos Elísios, Paris, Abril; 22 em Manchester, após concerto Ariana Grande, Maio; 7 na London Bridge/Borough Market, Londres, Junho).
Nenhum propósito de desvalorizar esses atentados (54 mortos no total desses seis episódios), mas não deixa de me sensibilizar a diferença entre o impacto mediático e, a nossa perceção e dimensão real no número de vítimas.
Desde Nice, a 14 de julho do ano passado (84 mortos na sequência do camião contra a multidão), o único acontecimento ocorrido na Europa equiparável ao que aconteceu ontem em Pedrógão Grande foi o incêndio da passada quarta-feira no prédio de habitação social em Londres (79 mortos). Numa altura em que o foco das nossas atenções e dos nossos medos está cada vez mais no terrorismo, não deixa de ser paradoxal que as maiores tragédias sejam incêndios (com causas e enquadramentos muito diferentes um do outro). Aparentemente, o diabo continua a estar nos detalhes.
Por sua vez, já não se aguenta a exposição da ignorância e da arrogância.
- Ignorância de quem faz juízos apressados sem conhecer o terreno extremamente irregular, a situação de aldeias construídas em covas ou pequenos outeiros, os difíceis acessos por estradas e caminhos vicinais, as condições inesperadas nas quais um fogo florestal pode crescer num instante, tudo agravado pelo tempo seco, pelo vento intenso e instável, e pelas temperaturas altas.
- Arrogância de quem insiste em culpas vagas e possibilidades impossíveis, apontando apenas a necessidade de impor o ordenamento florestal - que de facto é necessário, embora não possa ser feito em menos de décadas e com custos enormes - quando, como está comprovadamente a ser este o caso, a conjugação de fatores naturais e humanos foi decisiva.
Concentremo-nos no combate final ao fogo, no apoio às pessoas, muitas delas desalojadas e agora sem meios, na recuperação do que é possível recuperar, depois na melhoria das condições de vigilância e de organização da floresta. Não em culpar entidades mais ou menos abstratas por um desastre tão doloroso quanto complexo.
Tudo tem o seu sentido oportuno.


Só posso exteriorizar o meu mais alto repúdio a quem se apressa na instrumentalização política, de forma a aproveitar-se desta catástrofe.