novembro 30, 2016

Um retrato cansado

Quando estacionei o carro escutava o som do vento a enlaçar as arestas externas deste. Um sibilo desprazível e prenunciador de uma corrida de sofrimento até à porta do Tribunal.
Já cá fora – meia-volta que nem militar experimentado - em direcção do tribunal, e sou bloqueado por uma face repisada de rugas octogenárias vincadas, de mão estirada, molhada da chuva, a pedir uma “ajudinha”, com voz moradora numa alma esgotada dos anos, do tempo, do mundo.
Depois da “ajudinha”, agradeceu e abandonou-me ancorado no chão. Lapidificado a vê-la afastar-se na direcção do Rio Sado, combatendo estoicamente contra um vento que insistia a inventar-lhe novas fortunas e solavancos. A debilidade essa, já nem ligava à chuva.
Há dias que o nosso corpo de gigante se encaixa num frasquinho de dor. Hoje vim para casa de tubo de ensaio. Acanhado.