30/11/2016

Um retrato cansado

Quando estacionei o carro escutava o som do vento a enlaçar as arestas externas deste. Um sibilo desprazível e prenunciador de uma corrida de sofrimento até à porta do Tribunal.
Já cá fora – meia-volta que nem militar experimentado - em direcção do tribunal, e sou bloqueado por uma face repisada de rugas octogenárias vincadas, de mão estirada, molhada da chuva, a pedir uma “ajudinha”, com voz moradora numa alma esgotada dos anos, do tempo, do mundo.
Depois da “ajudinha”, agradeceu e abandonou-me ancorado no chão. Lapidificado a vê-la afastar-se na direcção do Rio Sado, combatendo estoicamente contra um vento que insistia a inventar-lhe novas fortunas e solavancos. A debilidade essa, já nem ligava à chuva.
Há dias que o nosso corpo de gigante se encaixa num frasquinho de dor. Hoje vim para casa de tubo de ensaio. Acanhado.

27/11/2016

REGRAS - COMO SE COMPORTAR NO FACEBOOK?!

Só não vos peço para fechar os olhos, porque estão a ler. Tornava-se mais complexo. Contudo se conseguirem…

Suponham que estão a caminhar na avenida central da vossa cidade. Atravessam centenas de pessoas por hora, quando senão, reparam que alguém no passeio oposto, se veste de forma totalmente diversa daquela que vocês apreciam.

- Pergunto-me, berram para esse indivíduo a expor-lhe o quanto mal se veste, o quanto inadequada está no padrão, julgando-a na vida pela roupa que carrega no corpo?

1. Se a tua resposta foi positiva, podes concluir a leitura por aqui, mover o ponteiro do rato ali no lado superior direito onde diz «Amigos», e seleccionem a opção «Remover amizade».
2. Farei um tutorial para auxiliar os oligofrénicos.
3. Se não sabes o que é um «Oligofrénico», pesquisa no Google.
4. Se não sabes o que é um «Tutorial», aplica o ponto 1.
5. Se fores o Trump, estás excluído dos pontos 1 a 4. (Eu gosto de me rir!)

A mim afigurar-se que no Facebook e demais redes sociais, aplicar-se-á o mesmo critério.
Atestamos qualquer conteúdo que achamos um perfeito absurdo. Uma asneirada. Um terrorismo intelectual descomunal. Designem como quiserem. Quando damos por nós, a Maria Leal é candidata a P.R. e o João Benedito a Presidente do Sporting… Comentar?

1. Se estiverem de acordo, comentem, gostem, adorem, partilhem!
2. Se não estiverem de acordo, estejam simplesmente quietos. Deixem-se de armar em juízes de execução de penas. São esses os ditames do respeito.
3. Os pontos 1 e 2 não se aplicam se for um post do Donald Trump. Partilhem directamente no meu mural. (Eu gosto de me rir!)

Mais a sério malta fantástica.
Vamos relembrar que atrás de cada ecrã habitam pessoas e não simples fotos de perfil. Esse ecrã não pode nem deve ser véu de impunidade lógica, que nos consente a comentar sempre que não estamos de acordo. ~
Se cada um de nós fosse assim na vida, a realidade é que não a tínhamos! Reparem que 98% das vezes, ninguém vos perguntou coisa alguma, certo?
Inteligentemente saudável seria mesmo respeitar a opinião diversa, sem a necessidade de patentearmos a nossa discórdia. Muito menos sem educação. O julgamento que não deve existir, a ter lugar, é realizado em silêncio – de preferência com um sorriso de esgar.
Concluindo,
O meu Facebook é a minha casa, não a vossa. Surjam por bem e bebemos juntos. Caso contrário, eu sou um democrata, mas o meu Facebook não é uma democracia.

Ps: Sempre que copiem um texto de alguém, identifiquem essa pessoa. Vamos lá saber viver em CiberSociedade.

RADICALISMO DO AMOR

Foram semanas dedáleas e as informações transpunham-se diariamente, sem que eu tivesse tempo algum para esconjurar os nervos.
Agora que as querelas jurídicas me permitiram inspirar um pouco mais fundo, dei com os olhos postos no escrito da Sr.ª Assunção Cristas onde registava a resposta ao «radicalismo do populismo, com o radicalismo do amor».
Não é sequer necessário ser católico, para compreender que «Radicalismo do amor» é uma expressão trivial na esfera católica, que porventura fará todo o sentido a nível espiritual e religioso, mas dissipa-se totalmente de nexo a nível político.
O «radicalismo do amor» pode até ser um delineamento místico altamente apreciável a nível particular, mas ele não é um plano político que a líder de um partido deva aduzir a toda a sociedade. E nada tem a ver com ilogismo ou falta de audácia em preconizar as convicções religiosas de cada um – relaciona-se com a distinção, excessivamente valiosa para ser desconsiderada, entre o plano político e o plano religioso. A separação entre a igreja e a política é retemperante, e o CDS ainda é um partido político. Associar, é puramente terrorismo ideológico.
Amor é uma palavra politicamente inútil.

19/11/2016

Portugal - dos pequeninos...

Há leituras que por serem tão fastidiosas me exaltam dores de cabeça. Há leituras que por serem tão extensas me instigam sofrimento nos olhos. Com esta realidade, queixo-me da alma. Adultera-me o espírito.


Podem não acreditar, mas está aqui - O Trump explicado para os meninos desatentos.

15/11/2016

Esta noite

Esta noite trajas pela casa com uma camisa de homem, branca. Larga. Uns sete números acima da tua dimensão. O tamanho certo.
Esta noite colocas aqueles saltos, para ficarmos numa só medida. Selecciona a música, porque a dança, o homem conduz.

09/11/2016

EVERY COUNTRY HAS THE PRESIDENT IT DESSERVES!

NOTA: Antes de delinear alguma opinião pacóvia, permitam-me salvaguardar que 90% das observações que tenho lido nas redes sociais, são de pessoas que não assentem nem coabitam com a democracia.
Podemos aprovar ou não o resultado, mas não devemos descurar, nem tentar inverter o que foi um processo de sufrágio democrático.
A democracia não existe só para socorrer os «nossos ideais de justiça». É global. Labora para um “bem” público. Comum.
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Bem, ainda ontem adormeci em 2016, e hoje acordo em 1933.
Estranho, porque continuo com a barba por fazer.
Meus caros, sejamos pragmáticos. Todos os dias saímos à rua e cruzamo-nos com imensos homo-neanthertalensis. Acéfalos. Até lhes oferecemos os «Bons dias!». A dissemelhança é que este é Presidente dos EUA.
Para vos asserenar as almas, tenho para mim que “Donald Trump Presidente”, não será o Trump que nos ‘animou’ durante amplos meses de campanha eleitoral, o que não deixa de ser deplorável, todavia díspar.
Aflige-me mais a assimilação que o povo americano, fez das palavras de Trump. Donald Trump durante a correria à Casa Branca, conseguiu através dos seus discursos epidérmicos desprender os demónios da ignorância, do populismo e da intolerância. Quando se exaltam junto de um povo carente de informação, esgotado de um sistema, bastante tempo demora até se retornar a colocar «a caixa dentro do armário».
Discursos tenebrosamente apelativos, ao ponto do Klu klux klan rever os seus ideais radicais neles, e conferir o seu aplauso ao candidato.
Prevejo tempos conturbados no que respeita à paz social nos EUA.
Acredito que o povo americano não votou para eleger Donald Trump, mas antes por um clamor de rebelião contra o sistema institucionalizado nos EUA, praticamente desde a Segunda Guerra Mundial. Sem a minúscula noção dos efeitos e consequências que daí advém. É certo.
Já agora, é igualmente genuíno que um país desenvolvido, não representa que nele habite uma sociedade politicamente desenvolvida.
O sistema político, assim como a justiça são o caos nos EUA. Aplicar-se-iam a um 4.º mundo por inventar.
Não se acolhe um Presidente dos EUA com o perfil de Trump – Estrela de Reality shows - como não se admite que a “melhor” candidata à Casa Branca fosse Hillary Clinton. Uma nulidade, igualmente perigosa.
Every country has the President it desserves.

06/11/2016

A febre do Sr. Ministro

Ouvindo a questão, ele observou-lhe os olhos com algum desdém.
Era naturalmente perceptível que com a chegada do Vinho do Porto ao estômago, pouco implicava quem ele era, de onde vinha, ou o que fazia.
Ele era o que ela quisesse, ele fazia o que ela deixasse. Eram pouco significativas as muitas línguas que poderia saber falar, afinal, já só procurava descobrir a dela nos escondidos ângulos do pescoço. Nada valiam as inúmeras formações com aprofundados doutoramentos, quando nenhuma ciência lhe dilucidava o fogo daquela febre. Febre do toque, avidez do fôlego.
Foi o indicador a pressionar-lhe os lábios que a sustaram de persistir nas questões desnecessárias. Por sua vez entendida, ela sorriu e beijou-lhe o indicador com delicadeza, mesma antes de o provar.
O Sr. Ministro tinha então descoberto, antipirético quimérico para descender aquele estado febril.

02/11/2016

E tu, sabes abastecer o teu carro?

São imensuráveis as aulas sobre o código da estrada, outras tantas respeitantes à condução, mas colocar combustível na viatura que é vital, ninguém ensina. Ao menos que no fim alguém soubesse fazer rotundas de duas ou três faixas. Mas nem falar disso é favorável.

Por alienígena que vos possa parecer, provoca-me mais aversão os «inaptos do abastecimento», do que propriamente a loirinha com os dentes de fora que deixa o Yaris a Diesel ir a baixo cinco vezes antes de arrancar. Isto numa descida.

Para tentar ser mais célere, fino e afoito, o senhor condutor parou a viatura do lado errado do posto de abastecimento, e então andava em disputa frenética com a mangueira retesada a tentar ladear o carro, para o conseguir abastecer. Assisti em primeira fila a uma casta rara de bombeiro careca, desfardado, que a lutar, estava a ser picado por 17 abelhas.

Se ele podia chegar o automóvel à frente para que a mangueira alcança-se o depósito? Podia pois. Mas por ser homem de barba rija, preferiu abrir as portas traseiras, e fazer passar a pistola e devida mangueira, por dentro do carro.
Se conseguiu abastecer? Naturalmente que não, mas valeu bastante a pena ver o espectáculo. Estive bastante próximo de pela primeira vez, contemplar um homem enforcar-se numa mangueira de abastecimento, sozinho. Ninguém o ajudou e ele sozinho, ia-se mesmo falecendo por três vezes. Nem nos escuteiros eu aprendi a fazer aquele laço. Resistiu por pouco e, resolveu então chegar o automóvel um pouco à frente. Do alto do seu metro e meio, empurrou o carro (para não gastar combustível certamente) e a mangueira já se tornava eficaz naquele depósito vazio.

Ao fim de (mais) 7 minutos o automóvel estava atestado, e a pistola fazia “cliques” por todos os lados. Mas homem que é homem não se detém ao primeiro “clique”, e insiste mais um pouco. Insiste só até o depósito de cheio que estava, esguichar combustível em jorro, ao ponto do Sr. Bombeiro ficar com os sapatinhos todos molhados e odoríficos.

Com isto já iam 25 minutos de espera e, fosse eu fumador, arremessava-lhe uma beata ao pézinhos, só para exteriorizar o meu desagrado atinente aos «inaptos do abastecimento».