28/03/2016

Portugal vive de lugares comuns

Lugares-comuns são uma espécie de outlets da inteligência onde, por preços muito fáceis, se compram imitações do pensamento.

Exemplo 1.º: «Portugal - País Pequeno e Periférico»
Que ninguém diga que eu vivo longe porque, na verdade, estou perto do meu vizinho, e se alguma vez a minha casa se tornar significativa, o centro passará por onde eu moro.


Exemplo 2.º: «Não há fumo sem fogo».
Este é o lugar comum que mais me indigna. É o princípio da presunção da inocência, substituído pela presunção da culpabilidade. É bom que se diga bem alto: há, (muitas vezes), fumo sem fogo, sobretudo quando grassa a calúnia, a inveja e a mediocridade.


Exemplo 3: «Duas cabeças pensam melhor que uma».
É falso, notoriamente falso. Quando duas cabeças se juntam, há uma que pensa melhor que a outra (embora, por vezes, se possam complementar). Quando Einstein emigrou para os EUA foi editado na Alemanha um livro intitulado «Cem cientistas contra Einstein». Resposta do visado: «porquê cem? Se estou errado, bastava um!» ou, como dizia o General Paton ao seu Estado-Maior: «se nesta sala todos pensam como eu, então, alguém não está a pensar!».


Exemplo 4.º : «Lá fora...» (referindo-se ao estrangeiro).
A este aplico o último post que escrevi.


Exemplo 5.º: «Vem nos livros...»
Mas quais livros Deus meu! Escritos por quem? Mas será que as pessoas não percebem que a autoridade de um livro é apenas de quem o escreveu, naturalmente uma pessoa que, como qualquer outra, tem os seus «bias», erros, enviesamentos? (uma variante muito utilizada pelos médicos é: «Eles» dizem). Em oposição, o reitor de Harvard, no discurso de encerramento do curso de Medicina começou da seguinte forma: «metade do que vos ensinámos é mentira...não sei qual é essa metade!»


Exemplo 6.º: «Ele(a) tem muita experiência...»
Lembro-me sempre do meu Pai, que gostava de citar Pascal: «Experiência não é o que nos acontece, mas o que fazemos com o que nos acontece...»
para acrescentar da sua própria lavra: «olha o burro, toda a vida à volta da nora... pergunta-lhe o que é uma circunferência!»


Exemplo 7.º: «É o País que temos...»
Habitualmente acompanhado de um movimento de ombros e sobrancelhas que parece querer dizer: nada a fazer, país de idiotas, incúria de irresponsáveis. Este é um País de suplentes, em que poucos parecem querer entrar no campo, e os que ficam sentados, não reconhecem que é a sua equipa que está a perder. Como gostaria de ouvir alguém responder: Este é o País que somos!


Exemplo 8.º: «Da maneira que falaste, perdeste a razão!»
Não, idiotas, não a perdi, (se a tinha), porque se a razão me assiste, bem posso ser malcriado, arrogante, snob, insuportável, desprezível ou colérico, que mantenho como minha a coerência do argumento, independentemente dos decibéis com que a expresso.


Num jantar, ouvi uma vez esta tirada, bem digna de um certo personagem queirosiano.
«Portugal, é um País que não estimula o raciocínio!».
Como tem razão, meu caro Conselheiro.