setembro 18, 2015

Fui às compras com a Patrícia

Por infeliz acordo em data para nunca mais lembrar, tive mesmo de acompanhar a Patrícia a uma grande superfície comercial para «fazer umas comprinhas», dizia ela com cara angelical, sobre o que seria camuflagem para 1259 facadas nas costas, e um banho de álcool de seguida.
Ir fazer compras com a namorada, é o equivalente à cera fria que nos arranca os pelos das pernas ou de uma borracha que se esfrega de baixo para cima nas patilhas. Pensando melhor, a cera e a borracha em união de esforços. É isso.
Entramos na primeira loja e, conheci um espaço oculto onde a anarquia domina o mundo, e a Patrícia desaparece do meu ângulo de visão em 0,03 segundos.
Misturou-se com os nativos daquele lugar assustador. E aquela gente não é normal. Assemelham-se a uma excursão de anões que se locomovem a uma velocidade frenética, passam por mim com cabeçadas nos cotovelos, nas costas e pisadelas, enquanto sem parar ou olhar para trás, algumas gritam (já ao longe) “desculpe!”.

Observo então, alguns bancos em forma de cubo, onde mais de 10 homens, desesperados definham. Alguns ressonam. Após levar uma literal ‘marrada pelas costas’ de um gnomo, escapo-me e sento-me num dos bancos. Foram 0,5 segundos de descanso até a Patrícia me ligar.
Por favor! Vem à secção das echarpes. Rápido. Preciso de ti!”.

Antes de perguntar onde era a dita secção, fui ao Google ver o que era uma ‘echarpes’, mas a Internet é farrusca naqueles locais.
Sem tempo a perder, saltei do banco que nem cavaleiro preocupado com uma chamada em aflição da sua donzela, corri entre corredores, saltei por crianças que rebolavam no chão, mães que falavam gesticulando, e eu, sentia-me o “Hugo”, daquele programa da RTP, onde os concorrentes sem vida jogavam de casa, através das teclas do telefone.
Vi a Patrícia ao fundo, e desviei-me dos mais estranhos obstáculos, tendo chegado a passar de nível quando deslizei por baixo de um grupo de adolescentes tentavam uma selfie. Quando perto, quis saber qual a urgência, quem lhe tinha feito mal, o que lhe doía. 

Amor, qual me fica melhor?”.
(…)
Para piorar, os danados dos lenços eram iguais! Assumi não ter jeito algum para moda.

Nas 279 horas seguintes, decidi dizer que tudo lhe ficava bem para tentar acelerar o processo, mas após ter visto a Patrícia transformar-se em mais de 200 vestidos e peças de roupa, ela escondeu-os entre prateleiras dizendo-me, “Ficam aqui para ver se há mais bonitos noutras lojas!”. 

Como?! 
Já se tinha teleportado para a Maximo Dutti.


O chão tremeu, as mãos suaram-me.
Fui peregrino em círculos de todas as lojas daquele Centro Comercial inacabável. Senti-me familiarizado com os manequins nas montras, e vi como olhavam para mim e pensavam “Pobre Ivo…”. Tentei discutir futebol com o boneco sem cabeça da Lion of Porches.
Arrastei-me feito mono atrás da Patrícia uma tarde inteira, superei a minha forma física, e hoje posso dizer que futebol e ginásio é para meninos de coro!


Pensar positivo Ivo. E pensei, “custa muito hoje, mas fica resolvido por uns belos tempos em que passarei o fim-de-semana (inteiro) de rabo alapado no meu sofá a ver a liga inglesa, espanhola, brasileira, das Honduras”. Qualquer uma é melhor! “Até espreito a Liga Portuguesa. Viva o Porto! – Estou por tudo!”

No fim do dia, sentados no silêncio do meu carro, olho a sorrir para a Patrícia, que nem “namorado que correspondeu a todas as necessidades e caprichos mesmo sem entender metade deles, etc., etc., etc….”, e ela olha-me com cara enfadada, e diz-me:
Levaram-me aquele cinto que eu tanto queria! Em dois minutos, já foi! Há mesmo pessoas fanáticas com isto das compras! Temos de ir às Amoreiras!”.
Eu, incrédulo, “Mas Patrícia…
Vai pela segunda circular, senão apanhas trânsito e demoramos imenso”.