julho 23, 2015

INFÂNCIA É FUTEBOL

Foi uma infância de tantos quilómetros corridos como de sonhos. Nasceram de sol a sol tantas linhas imaginárias, sem árbitros ou juízes sem ser nós mesmos, a fazer girar o mundo de ponta a ponta, na ponta dos pés. Mesmo sem bola, sorriamos para uma lata, uma maçã, uma pinha ou mesmo uma pedra de feições menos dolorosas.
Éramos profissionais exímios, e oferecíamos-nos o maior espectáculo do mundo. Os postes não o eram, as balizas nunca foram. Ficavam por sua vez pedras ajeitadas em montinhos, ou uma maior, ou uma mochila, e um dia, o mais novo dos miúdos e mais inútil ao jogo, tornou-se servindo voluntariamente (quer quisesse ou não), de poste.
O terreno de jogo terminava numa parede de casa, janela, couves ou hortaliças, ou suspendia-se com o conhecido “Olh’ó carro!”.
As tácticas capazes de criar inveja a qualquer Mourinho, começavam na baliza. Aí, era um de dois tipos. Ou mais doido que se atirava às bolas todas como se fosse um gato, ou o menos magro que não se atirava a nada que não tivesse açúcar.
E quando eu que chegava cedo demais, tantas horas que corria sozinho, fintava adversários inexistentes, ludibriava gigantes, aplaudiam-me as plateias sem fim os meus remates certeiros, a bater no poste e entrar como sempre e tanto gostei. Todos os golos eram decisivos na final do campeonato do mundo de futebol. E então corria, fugia dos colegas imaginários que me queriam agarrar para me consagrar e erguer que nem campeão, dava voltas ao pequeno largo de areia, festejava os golos como os meus ídolos, aqueles que dormiam todas as noites nas paredes do meu quarto, a olhar para mim.

Ainda hoje, seja na praia, campo ou na rua. Uma bola a saltar, sincroniza-se de imediato em batuque oleado com o meu ansioso coração.