13/04/2015

Repórter TV

Desde o meu primeiro ano de curso que me instruíram a analisar a qualidade de um país, na forma como tratam os seus reclusos.
Após uma apressada reflexão, conclui-se pela incontestável assertividade dessa máxima.


Contudo, hoje ao assistir à “Repórter TV”, retira-se algo especialmente tenebroso. A capacidade que as nossas elites têm de menosprezar o que de mais valioso existe no mundo. A vida.
A deterioração daqueles que devem ser os pilares principais e intocáveis da nossa sociedade (Justiça, Saúde, Educação), são a manifestação empírica que esta crise é muito mais penetrante e dilatada do que o nível financeiro que nos querem fazer acreditar.


Despertar esta sociedade para a crise, na sua face dura e real, seria papel para os nossos lideres, que não temos, para o nosso governo, inexistente, seria o papel das nossas forças sociais, que estão mais interessados e metidas em jogos de poder, do que na atitude de serviço. Tal como Camões transmitia, que «Fraco rei faz fraco a forte gente»; e nós temos uma falta desesperante de líderes, temos uma sociedade montada numa espécie de Sebastianismo.


É urgente, e urgente gerar, um sentido de solidariedade, um sentido de coesão social nacional. Por ora, o que se apela é sempre á fractura, é sempre e só à deflagração social, na busca de votos e reputação política.
O nosso Presidente da República está no poder desde 1980. Estamos a encarar questões muito graves, com os mesmos profissionais da política que nos conduziram até aqui.


Seria este o tempo de demitirmos os políticos profissionais, substituindo-os por profissionais na política. Nós temos tantos denunciantes, e não vejo proclamadores, e os poucos que temos, mentem em estratagema.
Andamos outra vez com esta quimera estatística da politização, mas a realidade é que temos um nível cultural paupérrimo. Governar para estatística, tal jogo de interesse. Não podemos esperar por um Messias, temos é de fazer de todos nós a pessoa que aponta o dedo e grita «O Rei vai nú», por muito engravatado que esteja.


A Reportagem que hoje vi, conta-me mais.
Diz-me que estamos a produzir uma sociedade montada na fachada. Estamos a desfigurar gerações, que vão ser o futuro deste país. Receio pelos meus filhos, pelos meus netos.


Estão jovens a desenvolver-se sem bases, estão a crescer sem valores, estão a agraudar-se numa sociedade que está montada no ter, e esqueceu o ser.


Negociar seres humanos daquela forma, vulgarizar os nossos idosos nos nossos hospitais com tal naturalidade, é procriar gerações de jovens sem memória, é criar gente sem história. Quando a memória e a história não se encontram, encontram-se os cataclismos sociais.


Estamos a crescer colectivamente sem memória.