02/03/2015

Bengala

A velha e ferrugenta bengala creme parecia moderna à força das rugas que a apertavam, e assim, tentava sondar mais meio palmo de chão que teimava em fintar-lhe o corpo.

De coração em esforço, arquejante como outrora perto assisti, balançava da esquerda à direita, onde os cabelos brancos de tantos anos, ao vento iam acusando os solavancos, arrítmicos a cada passo tentado.

 Estoica de inúmeras viagens sem tempo, foi perjurada sob a calçada declivosa de Lisboa, e então, em plena Avenida Dom. João XXI, a bengala não tateou a pequena falha de pedras porque as cataratas não consentiram, esta soltou-se da mão que a fixava, e lançou-se ao chão abandonando-a e traçando-lhe o mesmo infeliz destino.

Que nem portageiro em fuga terminei-lhe a viagem inevitável, agarrando-a. Senti-lhe a fragilidade no corpo, o pânico nos ossos, a afastamento no olhar.
- Obrigado filho, agora é que lá ia eu.
- Tem de ter cuidado, respondi.
- Obrigado. Sabes, fazes-me lembrar o meu neto.
Silêncio. Sorri.


- Quer lhe telefonar? – Mostrei o telemóvel.
Os olhos bem encetados decaíram ao chão, soltou-se do meu braço individualizando-se, como que a sacudir-se da queda que não deu. Inspirou fundo e contestou sem me fitar.

- Não, ele está a trabalhar. Ele não pode. Está a trabalhar. Obrigado, sim?


Acondicionei o telefone no bolso interior do casaco e disse;
- Ele gosta muito de si.
- Como? – Perguntou admirada.
- Dizia que o seu neto, ele gosta muito de si.


Ergueu novamente os olhos brilhantes de entusiasmo, projectou o sorriso mais genuíno da rua, e interrogou-me;
- Tens a certeza?
- Tenho a certeza. Absoluta.