25/12/2014

Patrícia Henriques

Na impossibilidade de explicar a razão do meu amor por ti, sobra-me a vida para te fazer entender o que jamais serei capaz de explicar. Não desistindo de o fazer, é certo que só saberás no fim, no último segundo, no folgo final, no cair do pano.
Não é o primeiro Natal que passo afastado de ti, mas cada dia mais custa esta distância. São insignificantes quilómetros de muitas saudades, de falta, de aperto. Cerceado desta minha determinação de te abraçar, decotado, incluso deste vazio, sem ti.

Nesta época de luz, amor e família, quero muito salientar-me no teu coração, evidenciar-me na tua vida, porque afinal se é de família que se trata, é da tua que quero fazer parte, criando todos os dias um pouco mais a nossa. Queria deixar que te (re)lembres de uma razão para te amar, e se assim é, o resto da minha vida não chegaria. Daqui a 50 anos estaria eu curvado à luz de vela, escrevinhando mais uma linha dos mil blocos com o sorriso de quem recorda a música mais bela, a imagem mais bonita, a dança mais viciante. E eras tu. Nascer-me-ias dos dedos por me transbordares da imaginação, ultrapassarias o vocabulário conexo, e daria por mim a inventar palavras para te desenhar na escrita irrepetível.

Amo quando te vejo a dormir, alheada do mundo, enroscada em 4 ou 5 cobertores que roubas só para ti, deixando-me meio destapado. Depois acordas a meio da noite, verificas esse teu jeito, tapas-me enquanto eu finjo que durmo, para tu, passado trinta segundos me abraçares por já estar a tiritar de frio. Depois vem esse abraço, abraço-lar, abraço-amor, abraço-abraço. Com esse aperto fico pronto para dançar no gelo, mergulhar nos polos, e rir-me da neve. Com esse abraço devolves-me a casa, a família e os meus peluches preferidos. Com essa pressão à minha volta, vivo o mundo, conheço as leis, e a fundamental é entrelaçar os meus dedos nos teus. És minha.

Amo quando acordo de manhã para ir trabalhar, sento-me de fato bonito e gravata aprumada na cama ao teu lado, passo os dedos pelo teu cabelo e digo que te amo enquanto dormes, fazendo-te deambular entre o sono e a vida, e sopita sem abrir os olhos, condescendes e correspondes o amor que te presto, somente abanando a cabeça afirmativamente. Como adoro a tua letargia matutina que quase faz começar audiências sem mim. Fascinado com mil serpentes ali fico, até o relógio me bradar que estou atrasado. Sorrio, afastando-me sem te apartar de mim. Não há melhor dia, que aquele que se inicia sabendo que termina em ti.

Amo quando acordas ao meu lado. Quando acordas com cabelos que parecem lisos mas terminam revoltados, ondulando de forma perfeita às curvas dos meus olhos. Foram feitos para os meus dedos os cruzarem, descobrindo mil caminhos de ternura, descobrindo-nos.

Amo esses teus olhos rasgados, vivos. Olhos que riem, e fazem sorrir o meu espirito. Olhos sempre prontos a deplorar pelas injustiças, por tantas tristezas, por inumeráveis alegrias. Olhos singulares, puros. Teus. Meus. Tens o olhar de me fazer estancar a ventilação, de me mimosear com a serenidade. Petrifico nos teus olhos, e por lá ficaria o resto da vida, atentando a cada ‘pormenor-pormaior’, principiando nas sobrancelhas vigorosas, findando no minudente sinal ocular abaixo da retina direita. Olhos de cristal, aspiro preleccionar o meu destino neles, viagens, gargalhadas, choros e até memórias.

Amo esse teu sorriso. Sorriso de maravilhas, desenhado a pincel de óleo capaz de fazer disparar o meu. Perdi a conta ao número de vezes que me perdi nele, me encontrei e sonhei acordado. Se usufruísse de desenhar o teu semblante, não teria arte suficiente para o retractar a forma perfeita como aos meus olhos ele se apresenta.

Verdade é que uma vida não chegaria para evidenciar o quanto assisto em ti, o quanto és, o quanto tens. Tenho em mim uma pessoa complicada, tu não és uma pessoa absolutamente fácil, porém, e aparte disso, és a pessoa mais fantástica que alguma vez conheci. Quero tornar-te consciente, hoje e sempre, que mesmo no centro das nossas arrelias, continuo a amar-te como fosse hoje o nosso primeiro dia, mesmo em torno dos teus ciúmes inexoráveis, continuas a destacar-te como a melhor, procedes como a minha princesa de histórias encantadas, que leio, releio-o vezes em conta sem planear cerrar o livro, ou encerrar capítulos. Especialmente ao inverso, acalento escrever inúmeras linhas deste nosso conto mágico, misturando a minha com a tua caligrafia, formando e gerando ‘flores que vamos regar’ por toda a vida, e na memória.

Contigo, basta-me existir para ser o homem mais feliz, o mais afortunado da pessoa maravilhosa que conheci, o maior felizardo deste meu destino, o significado de valer a fundo todas as minhas causas. És essa razão, obrigado.

Na impossibilidade de explicar a razão do meu amor por ti, sobra-me a vida para te fazer entender o que jamais serei capaz de explicar. Não desistindo de o fazer, é certo que só saberás no fim, no último segundo, no folgo final, no cair do pano.

Amo-te