04/01/2013

Vives em mim

Fui a bruxas, médiuns e feiticeiros; rezei ateu e descrente em igrejas e outros templos; avé marias e pais nossos, rogai por nós pecadores; acendi velas, espalhei incensos, soletrei mantras, tomei comprimidos, fui a médicos e a curandeiros; mudei de vida, de cidade, de país, de corte de cabelo e de canções favoritas. Evito a tua aldeia na linha do meu horizonte porque olho sempre para o lado, para a rua ingreme onde assenta o casario e onde te escondes cobarde, e não para cima, onde a paisagem campestre se define e o céu começa. Desfiz-me do anel, do mundo, das roupas onde um dia te roçaste de amor e no fim despejaste o ódio. Esfreguei-te da pele até quase sangrar, desisti de saber as respostas que não me deixaste; arranjei outros, outras, gente perdida como eu, ouvintes forçados da tragédia que tentei em vão banalizar de tanto e tanto a contar, passa a palavra, passa a outro e não ao mesmo, espalha por aí, espalha brasas, espalhafato. Carrego esta culpa como um nado morto ao colo; não tenho onde a largar, despejar ou enterrar, não consigo separar-me dela, e o tempo - Ah, o tempo! - que não desfaz em pó este cordão umbilical. Estás comigo a toda a hora. Amoral, assexuada; nem feia nem bonita, linda, nem boa e afável nem ávida e cruel; só te desejo e arrepias: estás, apenas. Segues-me para onde vou; não és sombra nem espectro, impressão ou sopro breve, mas carne viva num sorriso corpóreo, aflita. Não te julgo, não me faltas, não te afasto nem te agarro; serias uma excrescência suportável, não fora definires aquilo em que me tornei por dentro. És um átomo de dor, imortal e imbatível, és o toque subtil do tormento, o embalo desajeitado do choro, a saturação dos fins de dia, o sono inquieto das noites. És. Mas vou a bruxas e curandeiros, acendo velas e papo missas, mudo de vida e de pessoas, de roupas e de horizonte, para que um dia sejas Foste.
Por hoje, sonho todos os dias com os mistérios na curva do teu nariz e os poemas por descobrir no teu corpo mini-arranha-céus. O universo diz que é coisa para levar a vida toda a ler e eu confio, nele e em ti a caminho de mim. Não há nada em ti que eu não queira, nada em ti que não me sirva, que não me pareça ter sido feito à medida das minhas preces mais antigas. Tu, que és tudo o que eu sempre esperei da vida mas que a vida me dizia que não havia. Tu, a surpresa e a prova, o destino.
No entanto tenho algo ainda mais teu que meu. Um herdeiro, um filho nosso, a mudança que em mim criaste. É meu dever dizer-te que tudo isto seria despiciendo não fora uma lacuna imperdoável. Se eu quisesse mesmo, mesmo muito, dar-te-ia a conhecer um mundo novo, um filho só teu: a minha cabeça superhipersónica. A todas que se aproximam, confundi-las, banzadas, com as minhas piruetas mentais, as exasperantes contradições e o excesso emocional; perder-se-iam no meu labirinto interior, de tantas voltas que as deixariam tontas e incongruentes, incapazes de rotinas e obrigadas a reacções inesperadas, livres da dormência do tédio. Mas não quero. Sabes Porquê? Pelo que mais releva no universo amoroso: elas não entendem as minhas piadas.





(É este David Antunes...)