22/08/2012

Filho bastardo

Não é humanamente possível passar pela vida com o mesmo curriculum sentimental, se é que entendem o conceito. Afinal o que fizeste ontem é motor da tua decisão de amanhã. Sem saber e aos poucos, geramos o nosso pior inimigo, criamos esse inimigo com um sentimento tão forte como o do amor, só que não tenho nome para lhe dar. Sentamo-lo á nossa mesa, e oferecemos o melhor para o seu desenvolvimento. Durante o dia ensinamo-lo a ser forte, e á noite a magia dos apaixonados, daqueles que nem Romeu e Julieta que morrem por amor, e fazem outros tantos disparates parecerem sensatos. É assim a sua educação, e somos nós a oferece-la, dedicados a uma gestação repleta de sorrisos, com ele caminhamos lado a lado, pegamo-lo ao colo até que ele adormeça. Ele chega mesmo a adormecer, mas só depois de nos adormecer primeiro. Letal como anestesia sofisticada, ele não dorme, descansa, mas não morre. Não morre e acorda um dia, para nos deitar á cara tudo aquilo que de mau hábito lhe ensinamos. Acorda um dia, para se revelar uma caixinha de maus valores, que só magoa, e mesmo assim consegue ser tão nosso. Se o virem ao espelho, até o confundem connosco. Arrepiante não é? Mas é absolutamente compreensível. Não só se parece assolapadamente connosco, como é grande parte de nós que ali vive. Maltratados a quem tanto demos, impotentes e cravados, sim cravados com mais uma tatuagem para a vida. E lá se muda mais uma opinião, lá se altera uma ideologia, lá vem uma alteração tão profunda quanto genética, tornando-nos muitas vezes amputados sentimentalmente, bloqueados de biblioteca, fechados numa toca, onde todos os dias toca a mesma música, que por sinal é a primeira que ouvimos, e se mostra transversal ao tempo, intemporal que nem Eça, nos coloca a pensar se os erros são todos iguais ou será que esta não é mais uma tatuagem, esta é afinal a continuação da última. É verdade, o nosso maior inimigo, somos nós que o criamos.




16/08/2012

O direito de súfrágio

Sempre fui acérrimo defensor do dever de sufrágio. O artigo 49º da Constituição da República Portuguesa, sempre me pareceu aprumadinho e janota. É um dever cívico, e acima de todas as classificações, é a única forma de exercer o maior dos poderes que enquanto povo retemos; o de escolher e delimitar o nosso futuro. Ainda que as opções de escolha sejam entre o meu e o péssimo, é de ressalvar que entre votos em branco, e estratégias de nos fazer ouvir enquanto cidadãos, o importante é fazer um voto activo. Um não-voto, será sempre uma não actividade cívica, e de certa forma quase deveria ser um conhecido atalho directo a um não-direito. O da indignação. De todas as pessoas, aquelas que não votam, pouco me diz a sua indignação, a sua revolta pelo rumo do país, mais a sua resistência ao sistema que o governo implementa, tudo isso. Criticam onde a sua parte activa deveria ter sido ouvida no dia das eleições, e agora, por entre manifestações, gritos e insultos, já de pouco vale. Como tal, nunca encontrei lógica inteligente para que o partido que mais ganha as eleições no meu país, seja o da abstenção, que é precisamente o qual, que os seus militantes mais se fazem ouvir em revoltas eternas. Desta minha e de sempre, difícil digestão do não-voto, encontro agora este meu valor fragilizado, porque temo que das opções de voto que encontramos no boletim no dia das eleições, já nada se relaciona com o real governo do país. Faria agora sentido passar a exercer o direito de sufrágio nas eleições Alemãs, pois dessa forma, talvez todos nós conseguisse-mos uma real participação na vida pública, com o direito de tomar parte na vida politica assim como na direcção dos assuntos públicos do país, directamente ou por intermédio de representantes livremente eleitos.



António Costa

'Em tempos idos, não muito idos, mas que a memória já leva quase um ano, escrevi e muito acerca de um amor impossível ou até contra natura, como se ao amor se pudesse arranjar limites ou adjectivos, hoje amo um amor solidário e verdadeiro, um amor calmo, pensado e aceite, hoje a minha veia literária foge-me para futilidades ou então para coisas mais terrenas, menos abstractas, hoje não tenho nada para mostrar e do amor anterior nada há para mostrar porque num momento de raiva deitei fora os melhores textos, ficaram só alguns esboços daquilo que nunca entreguei ou daquilo que não deveria ter entregue.
Quem nunca amou ou quem foge do amor não são "pessoas" são "coisas".'


Por, António Costa