julho 10, 2012

Texto sem sono

O que se faz quando o sono não vem? Quando se acorda a meio da noite, como se todo o pouco sono sentido tenha sido passado dentro de um comboio. Daqueles com bancos pequenos demais para mim, onde são o ideal para uma pedrada de sono, mas horríveis para um acordar descansado. É assim que aprendemos que afinal temos mais ossos do que imaginávamos, porque agora sentimo-los a todos. Doem todos eles. Foi assim que acordei agora mesmo.
Algumas coisas têm de morrer; alguns sonhos de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Só o que é esquecível nos dá a capacidade de poder esquecer. É preciso saber sentir o que significa realmente para nós. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente de quem é inesquecível, a outra pode ficar-lhe para sempre. Fica mesmo. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar aquelas tatuadas na alma, aquelas que são 'a tal', e quanto a isso, nunca mudarão. Elas não saem de lá. Estúpidos! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é delimitar-mos com que doença estamos a lidar. Pode acontecer não ser apenas alguém, e ser já parte de nós. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se e sonhando de novo. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem de nós faz parte, é inseparável, como esquecer quem nunca terminaremos de lembrar? Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. O amor pode ser por vezes uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. Muitas vezes, durantes as relações verdadeiras é uma dor que é preciso aceitar, para depois aprender a não desistir. Aprender o que é realmente importante.
É preciso aceitar esta caríz de interface entre a metafisica e os humanos. Chama-se amor. Amor dos antigos, dos que são para valer, daqueles que olham de esguelha para os descartavéis e dizem aos seus botões "Miudos!" É preciso aceitar o amor e principalmente saber diferenciar das paixões da adolescência. Quantos problemas do mundo seriam menos dramáticos, se todos nós fossemos guerreiros dos nossos sonhos?