30/01/2012

Genéticamente foleira

"Pior, ela não é feia... Ela é geneticamente foleira. A frase desperta-me da inércia de mais uma viagem a caminho de casa. Ao meu lado, duas produtoras de televisão ou algo parecido falam de outra pessoa. A conversa chega-me aos ouvidos entre-cortada, entre a poesia de Carlos Drumond de Andrade e os ruídos de fundo. Passa-me quase ao lado até que a expressão 'geneticamente foleira' me faz erguer o sobrolho de curiosidade. Confesso que me deixou deliciado. Não ouvia uma tão ridiculamente engraçada desde 'trolha enough'. Na altura, pouco mais que adolescente e trocava um piropo com um amigo meu, entre risadinhas tão parvas quanto cúmplices. Era adjectivo obrigatório sempre que um de nós, movidos pelo natural explosão de hormonas, conheciamos uma rapariga gira ou fisicamente apelativa, mas aquém das nossas exigências intelectuais. A 'trolha enough' tinha para nós um significado muito idêntico ao de hoje. Voltando ao epíteto 'genéticamente foleira', tanto quanto percebi, establece que os traços fisionómicos por exemplo, podem constituir um motivo de avaliação social. Segundo a interlocutora, há características que determinam se a pessoa é ou não 'genéticamente foleira', e dificilmente são contornadas pelo estatuto ou quaisquer outros adereços adquiridos. Não me vou apoderar da expressão, mas confesso com algun embaraço que me recordo dela para 'etiquetar' algumas figuras que conheço. É discutível, facciosa e até segregadora, mas simplifica muitas considerações. Uma vez ou outra, dou por mim a pensar nesta ou naquela pessoa bem sucedida, elegante e intelegente a quem falta um "je ne sais quoi". No caso de ausência de "je ne sais quoi", é o promenor que a faz ser 'genéticamente foleira'. Uma patetice, claro..."