24/11/2011

Deus da bíblia


Talvez este nem seja muito comprido. Isto porque resta saber se realmente eu tenho muito para dizer. Talvez eu seja uma espécie de amputado espiritual. Não tenho propriamente um testemunho para dar, eu poderia falar de uma revelação que tive, no entanto uma «não-revelação», não existe. É o mesmo que eu falar do movimento de um braço que não tenho. A inexistência do braço, quase implica que eu nada tenha a dizer sobre ele. Não teria muita lógica, e seriam terrenos profundos para alguém como eu amputado. Eu tenho acompanhado com algum interesse, uma espécie de ressurgimento de movimento ateísta em Londres, e falo mesmo de algumas contribuições financeiras, por parte de um senhor chamado Richard Dawkins, que é um autor de best-sellers científicos, e todos juntos, elaboraram algo curioso, que diria profundamente secular; Um anúncio publicitário. Compraram espaços publicitários em autocarros da cidade inglesa, onde colaram a mensagem «Very likely there is on God, so stop worry and enjoy your life». Ora, de acordo com a larga maioria da publicidade, esta é claramente enganosa. Se Deus não existe, não nos preocuparmos e desfrutar da vida, torna-se uma opção difícil. Pessoalmente não tenho um código de valores que eu possa aderir, mais ou menos criticamente, está claro. Viver a vida sem preocupações é mais ou menos complicado, porque eu acredito que existe claramente a hipótese de que quando morrer; e julgo que isso vai acontecer um dia, ir precisamente para o mesmo sitio onde estava antes de ter nascido. Na verdade, isso é um assunto que me transtorna, como calculam.
Eu fui educado segundo uma católica praticante, indo á missa e mesmo as aulas de religião, e sou baptizado. Por onde passei, nunca notei grande força na tentativa de me converter, excepto claro, a tia da aldeia que só já falava em latim. Tenho dois pontos de vista distintos sobre a questão de não me tentarem converter. Ou porque eram pessoas sensíveis e tolerantes, respeitadoras da diferença; ou então, porque ao fim de tantos anos de convívio tiveram a ideia clara que eu não tinha salvação possível. Há uma possibilidade muito forte de ser a segunda.
Eu não tenho de ganhar o céu, e nessa perspectiva há comportamentos meus, que serei eu a ditá-los. Apesar de eu não ter um quadro de valores que me foi imposto, eu não acredito em Deus. Eu já escrevi sobre isto anteriormente, por exemplo, eu não acredito em Cristo mas acredito nos Cristãos. Isso já não é mau, certo? Eu acredito nas pessoas, e a minha relação com as pessoas é certamente próxima daquela que 'vocês' protocolaram como praticar o bem. Este 'vocês', parece que estou a falar com estrangeiros; mas bem vistas as situações até se pode entender que tempos pátrias diferentes.
Em resumo, e o que tentava passar maioritariamente, é que eu não sou um selvagem. Eu também tenho valores, podem não ser exactamente os que estão na Bíblia, mas eles estão cá. Por exemplo, um Ateu como eu, ter tão presente o valor do «Perdão». Como Ateu, onde irei eu buscar solução para o problema da «Morte»? Julgo que é essa a questão vital. Há um poema do Philiph Larkin que diz «A religião é uma estratégia para fingir que a morte não existe'. É mesmo isso que está em causa para mim, a questão da morte. Como disse há pouco, acredito que após a minha morte, eu volte precisamente para o local onde estava, antes de estar vivo. É curiosa esta diga-se «definição», porque ao longo da história, o Platão, na Apologia de Socrátes, quase que dá vontade de morrer com ele. Ele está a beber a Cicuta, e está a dizer aos companheiro, demonstrando algum regozijo, e a questionar, 'Há quanto tempo é que não dormem uma boa noite de sono?' O que Socrátes diz no fundo, é que a idade á avançada, e está mais que preparado para um grande sono. É ainda curioso constatar que uns séculos mais tarde, o Hamlet, no seu solilóquio mais conhecido de todos, «A tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca», que começa com «to be or not to be, that is the question, Whether 'tis nobler in the mind to suffer», é para quem sabe uma altura em que ele está a ponderar matar o tio, por causa da suposta maldade que ele lhe fez, e a peça é praticamente toda de Hamlet a ponderar o homicídio do tio, até que uma altura que ele quer matá-lo mas o tio está a rezar. Segundo Hamlet, matar alguém que está a rezar, é garantir-lhe o céu, e isso nunca poderia ser um castigo. Referente ao «ser ou não ser», Hamlet diz, que 'não ser', começa a ser uma questão apelativa, derivado então do famoso «Sono sem sonhos».
Ainda uns séculos mais tarde, há um livro também bastante conhecido, de Philip Roth nome «Everyman». Nesse livro, há também um homem que está a ponderar na questão da morte, e tal como Hamlet no cemitério, este homem também fala com o coveiro, e manifesta mais uma vez a definição do sono sem sonhos, mas ao contrário de Socrátes que se mostrava ansioso para a morte, este, séculos mais tarde, achou tudo bastante desinteressante. Isto significa que estamos nós ateus, novamente no mesmo ponto, que a morte é manifestamente um sono sem sonhos, e continuamos com um assolapado mau-perder em relação a isso.
Ainda assim há onde ir buscar algum conforto. Há um livro, chamado a Bíblia, e um livro especifico de nome «Eclesiastes». Isto agora vai ser muito polémico, e deveras absurdo, mas estou notoriamente convencido que quem escreveu o eclesiastes é um não-crente. A voz que fala no livro do eclesiastes é um senhor de nome Kruella, que é o pregador. E este pregador vai dizendo basicamente tudo aquilo em que eu acredito, tudo aquilo a que partilho a opinião. Num ponto, do livro, o Pregador diz-nos que tudo é vão. Não há justiça no sentido em que os bons e os maus, os ricos e os pobres. Diz-nos ainda que a toda a humanidade, acontece o tempo e o acaso. Ou seja, era uma óptima pessoa, morreu. Era uma péssima pessoa, morreu também. É basicamente isso que ele diz, embora que de uma outra forma. Está em original algo do género «Vapor of vapors, and futilitys of futilities, all is vanity and emptyness». Entende-se por tudo ser vão. Eu juntei uma enorme fortuna, morri. Ganhei muito conhecimento, morri. Fui bom para o meu semelhante, morri. Fui mau, morri também. A questão passa agora por, se Deus existir, não pode ser vão. Se Deus existir, isto não pode ser o vapor dos vapores, e isto tem um sentido, há uma repercussão para isso e um significado para a nossa existência aqui. No final, é também muito curioso, o Pregador diz, «por isso nada mais resta ao homem, que comer, beber e divertir-se».
Julgo conhecer relativamente bem, tanto o antigo testamento, como o novo, e a realidade é que existem situações que fogem á minha interpretação lógica. Sem querer identificar um 'Deus cruel', o episódio de Abraão, em consegue convencer Deus que em Sodoma há inocentes. Deus, acordou com a descoberta, dizendo que se houvesse dez inocentes, não queimaria Sodoma, que poupava Sodoma. É certo que só em Sodoma existiam centenas de crianças, logo inimputavéis de pecados contra-natura. Nada serviu, pois todas elas acabaram assim como inteira Sodoma num auto de fé em chamas devoradoras. Deixo ainda suspenso o episódio do castigo de Deus a Jóh, ás mãos de Satã.
Novas teorias, e praticamente ondas doutrinais colocam-se um pouco afastadas da bíblia, quando confrontadas com a ideia de que poucos são os crentes que a conhecem. No entanto, não quero deixar de relembrar, que o antigo e o novo testamento, são considerados os livros «Sacros», e nunca podem ser apenas vistos como um manual de interpretação simbólica, quando tanto da leitura que lá está é literalista. Existe sim, como uma força suprema e inteligente, não como descrito num livro que me atreveria a chamá-lo de 'quase-bélico', por razões obvias.
Eu não consigo acreditar no Deus da bíblia, mas não nego a existência de um ser superior, inteligente que á altura do nascimento do universo se emergiu. Embora não tenha sido logo identificado.