06/07/2011

Solidão


Em viagem pela avenida da Liberdade, e somos pequeninos de novo. Mesmo os meus 190cm cabem dentro de um frasquinho, daqueles com tampa de metal. Milhares de sem-abrigo, cogitam em sonhos profundos, ou outros nem tanto, espalhados em assentos raivosos de tal uso por Lisboa. Com toda a gente a aterrar nas cidades, com cada um a ter a sua vida, feita de núcleos familiares ínfimos a quilómetros uns dos outros, com o egoísmo da vida própria e as amizades virtuais que raras vezes se traduzem em abraços verdadeiros, caímos facilmente na esparrilha da solidão, quando o amor passa a correr longe. A solidão é como naqueles filmes de terror: uma menina de totós que nos espera silenciosamente ao fundo do corredor, que nos dá sem sabermos porquê uma sensação esquisita, um arremedo de pânico mas que ao mesmo tempo nos atrai; uma estátua inocente que, quando se aproxima de nós, abre uma bocarra de dentes afiados que nos quer devorar inteira. Esta menina pode aparecer em qualquer idade, de repente, devagarinho, ao longe, agora mais perto, em cima de nós, agora. O problema é que não é um monstrinho zombie que se limita a refastelar-se com um dos nossos apêndices, como um braço sugado em modo de festim sanguinário numa cidade morta. Não, é um monstro que nos suga o cérebro por uma palhinha. Que nos suga a auto-estima, a alegria, a vontade, devagarinho, implacável e determinada. Que nos faz esquecer que um dia houve cumplicidade, um riso simultâneo por algo ridículo que mais ninguém viu, um fluído alheio do qual apenas nós não tivemos nojo. À solidão assiste uma precisão cirúrgica: como uma lobotomia, apaga-nos a memória e cola-se aos corpos sozinhos como cem por cento de humidade, como poeira nuclear ou o sal amargo depois de um dia de mar a mais. Talvez olhando-a de frente se aprenda qualquer coisa, não sei.