08/04/2011

Bloguista?

Escrever com cuidado. Medir as palavras, antever as tensões. Pegar nas sílabas e sopesá-las, a nossa cabeça dois fiéis de balança. Estar atento à ficção desbragada, para que não possa nalgum canto aparentar verdade. Fazer bem a distinção, exigem-nos. Portarmo-nos bem, andar na linha, mostrá-lo ostensivamente. Perder a piada quando na... mentira, deixarmo-nos de confusões, de equívocos propositados, de mundos de cabeça para baixo. Não fantasiar, não vá a fantasia ser confundida com um desejo insatisfeito, um estaria bem melhor noutro lado. Com outro qualquer. Atentar nos parágrafos, que tenham pouco de passado, se possível nada de nada, algo de presente e muito de futuro. Um radioso e em comum, para que a confiança não se perca e a dúvida não se instale. Coisas tristes se discutimos, alegres se nos reconciliamos. Os sentimentos no devido lugar, em perfeita coordenação com o momento e o local, como se de cortinados. Não deixar fugir dos dedos desinquietações nem tremuras, muito menos indecisões. Nunca o credo na boca ou o sangue à cabeça, ainda sai algo que não queremos. Que não pretendêramos. Pior: no qual nem sequer acreditamos. Escrever de mansinho e à cautela, sem subtilezas nem palavras dúbias, muitos significantes, nada de significados, e parágrafos seguros, com a assertividade de um telex quando ainda os havia. Poucos sentimentos, não vá «o Diabo tecê-las». Sentir é dualidade, é errância, é instinto - e nós não queremos nada disso, não não, que se começamos a puxar a alma para fora (a nossa ou a dos outros) sabe-se lá onde vamos parar. Falar de política, do tempo. Se do sexo oposto, só generalidades e, mesmo assim, há que não deixar ninguém mal na fotografia. Senão pessoaliza. Amua. Esgravata o texto, à procura de si nas palavras. E garanto-vos que se encontra. Sexo propriamente dito, então, nem pensar, muito menos em modo de memória descritiva. De qualquer modo, para o outro, todo o sexo é em modo de memória descritiva, mesmo o que nunca aconteceu, mesmo o que nem teríamos tido vontade de experimentar. Melhor é política, mesmo. Ou televisão. Ou política em televisão. Parece que isto é Amor, dizem.