28/01/2011

Rascunho

Qual bonito? Bonito era eu adolescente curvado sobre o candeeiro a intentar um romance com a caneta obrigada a sulcos curva contra-curva naqueles papéis que a minha mãe trazia do serviço.
Bonito era eu ficar com o anelar amolgado (sim, pego a caneta como nenhum outro trôpego) por aquelas BIC de que me vingava quando roía as tampas até sangrar a gengiva.
Quando não calhava os lábios borrados de tinta por fazer pastilha da carga.
E trincar o plástico já agora, até se partir.
Bonito era eu querer dedicar poemas e não ter quem me pudesse desprezar com a verosimilhança de ensejo falhado, tão falhado era o ensejo de tentar.
Bonito é também o cansaço, o tornear os poemas para não ter como ser dedicado, não ter como se iniciar artes de quem tudo sofre e suporta, falaciosas sem querer e mesmo querendo, já se sabe, tão acabado é o apelo da modorra, como resolução antecipada, como atalho narrativo, como restolho do que quis, como restolho do que não sabe merecer, como restolho de gente em modo de querer muito.
Vejam lá para o que eu estava guardado.

20/01/2011

Cátia

Foi condão do céu por certo, foi talvez aura celeste, que, ao nasceres, recebeste e em ti se difundiu. E, forte, desceste ao mundo, brilhando de luz divina, essa luz que me fascina, que nas trevas me sorriu...
Este ansiar incessante, esta esperança ainda tão vaga de gozos, que a mente afaga, mal lhe sabendo o valor, este ignoto sentimento...
Deus do céu, será o amor? Amor! Que palavra é esta, que ela só me sobressalta e mil sensações exalta desconhecidas para mim... Que poder mágico encerra para me agitar assim?
É o amor o sentimento que me faz arfar o seio?
Este gozo por que anseio e a que inspira o coração?
É pois amor este fogo, esta vaga inquietação?'

09/01/2011

Que receio

Estar casado uma eternidade e ser-se feliz a maior parte do tempo só resulta quando, por um raro acaso astral, duas almas gémeas se encontram, e essa é uma probabilidade que implica uma fila interminável de zeros à direita. A maior parte das vezes ao princípio ama-se, depois aguenta-se e vai-se indo, pelos filhos, pela economia comum, pela companhia, pelo status quo, pelo carinho, até pelo ódio (sim, o ódio pode unir duas pessoas). Mas o mundo dos divorciados, com aquela sua allure de sacanagem e de liberdade, com as suas infinitas possibilidades de escolha múltipla e de descarte fácil, pode ser igualmente merdoso, se não pior. Aos quarentas, conhecer outra pessoa com um propósito definido é algo constrangedor, mesmo que se pretenda uma mera amizade (o que quase nunca acontece). Porque nada é natural na aparente novidade que é o outro. Os separados (que acham sempre que não têm tempo a perder) precisam de saber de imediato aquilo com que contam para poderem agir de acordo com as suas necessidades. Para tanto, montam um personagem com que visam, de acordo com o fim que é a satisfação dessas mesmas necessidades, agradar ao outro. A carente quer tentar perceber se há hipótese de a companhia para jantar lhe pôr um dia um anel no dedo; o desapegado quer saber se pode sair da cama no dia seguinte sem deixar número de telefone nem marca no colchão; o solitário contra vontade procura uma família alternativa que substitua a que perdeu; a recém divorciada que se sente subitamente livre quer estudar todas as oportunidades que se lhe apresentam, sem necessariamente ter que as experimentar. Vão-se conhecendo, aqui e ali e vão-se medindo, de alto a baixo, tentando ultrapassar barreiras como se numa corrida de obstáculos. Transformam-se temporariamente naquilo que acham que o outro gostaria que eles fossem. Iludem e fingem, riem e olham-se de lado. E eu, que sempre tive a teoria de que no fundo vamos sempre procurando a mesma pessoa, uma e outra vez, ou seja: ou uma igualzinha à que foi a mais importante para nós ou o exacto oposto dela, não gosto desta duplicidade de sinais própria dos descasados, nem do esforço ensaiado da primeira impressão e, muito menos, do desespero da sedução empacotada para consumo imediato. Toda a bagagem afectiva que transportamos connosco (as memórias que nos mordiscam, os lados negros que enxotamos), empurramo-la com os pés para debaixo da mesa do restaurante cool e muito in onde, com ferocidade, nos tentamos impressionar mutuamente e brindamos ao futuro. Os chãos das mesas dos restaurantes cool e muito in onde homens e mulheres inventam alegres familiaridades, estão cheios de bagagem mútua que se amontoa como num daqueles carrinhos que serpenteiam pelos aeroportos, prontos a encherem o porão dos aviões. Depois acaba tudo de talão na mão nos perdidos e achados. Invariavelmente, mais perdidos do que achados.