setembro 07, 2010

A cegueira (Numa chamada até as 5 da manhã)

É tão mais fácil escondermos-nos das imagens que os nossos comportamentos possam transmitir aos outros do que olhar para o espelho e reconhecer que errámos, mas eu errei, desculpem-me. De repente, num belo dia, percebemos que alguém pensa que somos assim ou de outra forma pior e, essa imagem, afinal não era a que queríamos que alguém guardasse, que nos pintassem, assim de rosto desvairado, cabelo desgrenhado e cara esborratada, mas foi essa a imagem que ficou, naquele momento em que dissemos o que não queríamos, não cegos de ódio, nem espumando da boca como cães enraivecidos, nem mesmo dissemos barbaridades ou mordemos em quem nos levou àquele estado de loucura temporária, absortos que estávamos em deitar cá para fora toda a frustração que nos corroía os ossos e nos esmagava as entranhas, nunca nos passando pela cabeça a imagem que os outros gravavam. Quando olhamos finalmente para nós, através dos olhos de quem nos viu naqueles preparos, [Que não conhecem] não imaginamos, sequer, o quão ínfimo é o que vemos. Os outros, os que assistiram, guardam-nos ampliadas, com a voz amplificada a níveis de histeria de um verdadeiro alucinado antes da medicação diária. A vergonha da nossa própria figura deveria ser a linha que nos separa de repetições constantes da mesma figurinha, mas não, é mais fácil tentar enganar[mos-nos] os outros com a velha desculpa de que te fizeram a cabeça. Depois descobri que não éramos os únicos em que havia frustração e um medo incondicional, de quem não soube ser no passado. Corrigir erros á força? Não, eu amei, mas isso é linha ténue de quem tem medo de perder, e fracos demais para debitar todas as responsabilidades em quem é mais fácil. O Ivo implicava 300 km de saudade, o Ivo tem um nome para isso. Afinal aqueles episódios de recriação futura de que provavelmente os tais requisitos de quem te iria agredir um dia foi fruto de uma imagem de quem não acompanha, e aterrou á pressa, com a ânsia de dizer algo de útil, fruto da tua imaginação e de uma alucinação colectiva de quem soube dele sem nada saber. Todo o teu mundo sabe tanto sem nada saber, sabe de exageros e fábulas horríveis, mas de nada sabem. Não sabem quem fomos, nem o que fizemos, não sabem quem nos somos, nem o que precisamos, não sabem. Não sabem que ainda hoje gostas de histórias. Vivem a tua vida, só para não haver mais uma fuga, para não haver mais distância e mais 'maus bons presentes'. Não ralhem mais, arranjem-me forma de voltar atrás no tempo, eu não roubo ninguém de ninguém, e a pessoa que deveria saber disso, já está mais que formatada.
Não se entende por igualdade, tratar todos de forma igual, mas antes tratar casos semelhantes de forma semelhante, e situações diferentes, de uma forma diferenciada.
Desculpem-me todos.
Depois alisamos ao espelho os cabelos desgrenhados, limpamos a espuma do canto da boca e achamos que estamos com olheiras, tudo o resto um pesadelo que sacudimos para debaixo do tapete e esperamos que ninguém o levante e veja a merda que andamos a esconder, principalmente de nós próprios.