08/09/2010

Mas ainda te lembras?

E depois tem a maneira como ele a abraça, nunca vira nada assim. 'Vira' de ver, mesmo. De como os ombros dele se encurvam, contemplando-a toda, primeiro com uma aparência devoradora, como uma piton escancarando as mandíbulas e preparando-se para a deglutir inteira, anestesiando-a primeiro, hipnotizando-a, açambarcando-lhe a pele, crescendo perante ela, tapando-lhe o sol. Há uma falta de ar que se insinua nela, como se pressentisse o fim e nada mais valesse a pena, respirar para quê?; mas depressa cede ao calor daqueles braços que crescem e descem sobre ela, redondos, um cordame que se enrola e aperta, o tronco dele a acompanhar o movimento, a ajeitar-se de lado, descaindo um pouco por forma a fechar sobre ela o círculo, comprimindo-a com uma suavidade determinada de ressuscitar corações. Ele é alto, e por mais que se ajeite e se entorte e a circunde, ela esparrama-lhe sempre a cara no peito, expirando tanto receio como alívio, escondendo o nariz entupido de emoção naquele torso largo, que carrega lá dentro um compasso cardíaco acelerado, o compasso de quem quer guardar o outro para sempre dentro de si, carregá-lo em modo marsupial, levá-lo ao médico, às compras e para a cama, porque senão morre. Depois ele embala-a, como se faz a um bebé, numa cadência fina que transmite a certeza de ainda ali estar no dia seguinte, de pé embrulhado nela, porque não, os cavalos nem sempre se abatem, e ela não sabe se aquilo é amor ou se ele um corta-vento, só sabe que adormece e tudo o que ele podia fazer dela, se quisesse.

07/09/2010

Marinho Pinto

«Não li o processo, mas as penas parecem-me exageradas.»

(Mas o momento mais assustador do infeliz bastonário foi a sua gaguez súbita - ele que é um homem de palavra fácil - quando ouviu a palavra «vítimas». Como é possível uma das classes profissionais mais importantes do país (Cof cof) estar representada por alguém que perdeu totalmente o contacto com aquilo que é o essencial na justiça?)

Burro sou

Passei a manhã a matutar nisto e não ia conseguir acordar a sério sem vomitar a treta da reflexão e da pergunta.

Parece-me a mim que metade das pessoas andam à procura de uma mãe, e a outra metade à procura de quem controlar facilmente.

O que há de errado em se ter ao lado alguém que seja um igual, em vez de alguém que se considera de uma forma ou de outra superior ou inferior ?

A cegueira (Numa chamada até as 5 da manhã)

É tão mais fácil escondermos-nos das imagens que os nossos comportamentos possam transmitir aos outros do que olhar para o espelho e reconhecer que errámos, mas eu errei, desculpem-me. De repente, num belo dia, percebemos que alguém pensa que somos assim ou de outra forma pior e, essa imagem, afinal não era a que queríamos que alguém guardasse, que nos pintassem, assim de rosto desvairado, cabelo desgrenhado e cara esborratada, mas foi essa a imagem que ficou, naquele momento em que dissemos o que não queríamos, não cegos de ódio, nem espumando da boca como cães enraivecidos, nem mesmo dissemos barbaridades ou mordemos em quem nos levou àquele estado de loucura temporária, absortos que estávamos em deitar cá para fora toda a frustração que nos corroía os ossos e nos esmagava as entranhas, nunca nos passando pela cabeça a imagem que os outros gravavam. Quando olhamos finalmente para nós, através dos olhos de quem nos viu naqueles preparos, [Que não conhecem] não imaginamos, sequer, o quão ínfimo é o que vemos. Os outros, os que assistiram, guardam-nos ampliadas, com a voz amplificada a níveis de histeria de um verdadeiro alucinado antes da medicação diária. A vergonha da nossa própria figura deveria ser a linha que nos separa de repetições constantes da mesma figurinha, mas não, é mais fácil tentar enganar[mos-nos] os outros com a velha desculpa de que te fizeram a cabeça. Depois descobri que não éramos os únicos em que havia frustração e um medo incondicional, de quem não soube ser no passado. Corrigir erros á força? Não, eu amei, mas isso é linha ténue de quem tem medo de perder, e fracos demais para debitar todas as responsabilidades em quem é mais fácil. O Ivo implicava 300 km de saudade, o Ivo tem um nome para isso. Afinal aqueles episódios de recriação futura de que provavelmente os tais requisitos de quem te iria agredir um dia foi fruto de uma imagem de quem não acompanha, e aterrou á pressa, com a ânsia de dizer algo de útil, fruto da tua imaginação e de uma alucinação colectiva de quem soube dele sem nada saber. Todo o teu mundo sabe tanto sem nada saber, sabe de exageros e fábulas horríveis, mas de nada sabem. Não sabem quem fomos, nem o que fizemos, não sabem quem nos somos, nem o que precisamos, não sabem. Não sabem que ainda hoje gostas de histórias. Vivem a tua vida, só para não haver mais uma fuga, para não haver mais distância e mais 'maus bons presentes'. Não ralhem mais, arranjem-me forma de voltar atrás no tempo, eu não roubo ninguém de ninguém, e a pessoa que deveria saber disso, já está mais que formatada.
Não se entende por igualdade, tratar todos de forma igual, mas antes tratar casos semelhantes de forma semelhante, e situações diferentes, de uma forma diferenciada.
Desculpem-me todos.
Depois alisamos ao espelho os cabelos desgrenhados, limpamos a espuma do canto da boca e achamos que estamos com olheiras, tudo o resto um pesadelo que sacudimos para debaixo do tapete e esperamos que ninguém o levante e veja a merda que andamos a esconder, principalmente de nós próprios.

06/09/2010

A lua

É impressionante o quanto inesperado é o acaso. Escondida no fim, mesmo no meio de tudo, se encontra alguém com a capacidade de se dar. Com um levitar jocoso, se parte para a viagem sem passe nem bilhete, deixando para trás duzentos conceitos filosóficos que por tão correctos estarem, nunca me ajudaram em nada. Vive-se o momento, vive-se a areia, vive-se a lua, vive-se o mar e a música de discoteca ao fundo. Tudo numa velocidade tão rápida que assusta o espírito, e que só a experiência vai sabendo fazer-nos passar por tudo, e não que tudo passe por nós.
Com a marcha imperial de um perfume que invade, tudo se torna tão privado, mesmo que aos olhos do mundo.
A lua, enorme, cheia, tão perto e acusatória, que se arrasta em reflexo pelo mar, tocando-nos a pele, enviando, sorrisos e impulsos.
Regredimos á natureza humana, e já se sabe tudo de olhos fechados, de trás para a frente.
Por essa altura, já tudo cativa, tudo indicia, vai surgindo a melodia mais bonita, espaçada, aleatória, perfeita.
Feras presas em fios de pesca, que a própria lua vai soltando...
Oh Lua, mas que mais segredos sabes tu?...

Que língua para esta narcísica pátria em palavras?

Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

05/09/2010

Portugal vs Chile ???

Criticavam Scolari, mas eu tenho tantas saudades desse tempo na nossa selecção, em que o país parava para ver qualquer jogo, fosse amigavel ou oficial, E seja qual fosse o adversário sentiamos sempre que podiamos vencer.... Agora, hoje? Bem os dias de hoje... acho que já todos percebemos que ...o Prof. Queirós não tem estofo para ser Seleccionador Nacional... não há gosto em ver jogar esta selecção... jogadores que por serem quem são, jamais os via abalados na sua ânsia de vencer, a desistirem antes do previsto, imprevistos atrás de imprevistos... membros do staff técnico a baterem com a porta.

Obrigado Queirós por teres desfeito o que mais difícil foi conquistar, a alegria de um POVO em torno da Selecção...a UNIÃO do POVO português.

Está na altura de saberes o teu lugar, assim como Madaíl.