11/08/2010

Já não há para onde fugir



O homem já havia enchido o depósito do meu carro e verificado a pressão dos pneus. Tinha um daqueles olhares de quem viu mundos e voltou para contar.

‘Se quiser, tiro-lhe esta mosquitada do vidro! ’
O homem que proferira esta frase naquela tarde abrasadora de Setembro já havia enchido o depósito do meu carro e verificado a pressão pneus. Tudo com uma ligeireza que dificilmente poderia atribuir a alguém na casa dos sessenta. A pele tisnada e um corpo vigoroso eram apenas desmentidos por um olhar fundo e meigo. Daqueles olhares de quem viu mundos e voltou para contar. Disse-lhe que sim, que me fizesse o favor de dar uma limpadela no para brisas. Seria um pretexto para lhe dar algo mais quando pagasse sem que se sentisse humilhado. A nobreza da alma vê-se por fora, e os seus gestos eram pragmáticos e lestos de alguém habituado aos trabalhos duros que a vida vai impondo.
Perguntei-lhe se era dali, daquele remoto lugar no Alentejo, sabendo eu que fosse qual fosse a resposta, o que é relevante num percurso não é o local de nascença mas onde se foi encostando o corpo ao longo do caminho. «Sim», respondeu, «mas fugi para Lisboa porque desde os 5 anos aqui verguei na lida desta terra que devolve pouco e exige tanto.» A tatuagem fundida no braço esquerdo, e que poderia ser uma serpente ou uma frase ilegível, pareceu contrair-se. Sem ter ido sequer à escola porque a não havia, tinha escapado aos 12 aos rigores do chão alentejano e ao afecto paterno, se este tivesse existido. Deambulara pela capital onde conseguira trabalho numa adega ali para os lados de Santa Apolónia. Aí conheceu prostitutas, perdidos, bêbados e viajantes sem destino e de origem duvidosa. Tornou-se um deles quando se juntou a uma trupe de circo que parara para se refrescar em tinto de pipa. Fugira uma vez mais. Foi aprendiz, malabarista, acrobata, ajudante de cena, cavaleiro, mimo, mágico, porteiro, vendedor de pipocas e finalmente, a profissão que lhe ficaria colada na pele melhor do que qualquer uma das muitas tatuagens, Palhaço. Correra o País e até a Espanha tinha ido.
E quando fazia de Palhaço rico usava o sotaque daquele país para sublinhar piadas às quais a miudagem retribuía num alarido que lhe alimentava o corpo e o sonho. Palhaço foi toda a vida, mesmo quando na Guiné evitava premir o gatilho da sua G-3 no receio de matar o inimigo oculto. Embora soldado, soldado nunca foi. E de lá fugiu, pouco antes do 25 de Abril, que o havia de indultar da pesada carga da deserção, para ir viver no Senegal. «Nenhum Palhaço pode odiar», repetia para justificar mais esta fuga. E em Dakar fez uma vez mais de tudo para que a fraqueza o não levasse. Embarcadiço num pequeno veleiro, transportava café, cabras e contrabando entre as pequenas ilhas vizinhas. Numa delas teve finalmente a oportunidade de regressar a Portugal.
O barco Amor de Mãe andava na pesca do atum e voltaria a casa nesse mês. Embarcou e foi pescador, marinheiro e estivador. Na década de oitenta, já o país não era o mesmo, e nem as suas tiradas de Palhaço rico num espanhol de fronteira surtiam efeito junto de plateias que agora preferiam a nudez das trapezistas. Agora limitava-se a levantar e a recolher a tenda, espetar ferros e esticar cordas dando-lhes nós que aprendera no mar. Voltou à arena, mas para limpar o recinto dos dejectos de cavalos magros e tigres adormecidos. Sem mais que fazer, decidira tornar a casa. Chegou à sua vila de noite e adormeceu à porta da que tinha sido a sua casa. O posto de gasolina estava em construção e foi onde o barulho da azáfama que despertou. E aí arranjou trabalho.
Agora que acabou de limpar o último mosquito com minúcia de artesão, acabou de limpar o último mosquito com minúcia de artesão, acabou também de me contar a sua história. «Aqui estou vai para 20 anos, saiba o senhor.» E antes que eu cometesse a imprudência de dar gorjeta a este Palhaço que só buscava dignidade, olhou em redor, abriu os braços queimados e exibiu uma vez mais tatuagens indistintas. Apontou a imensidão em volta e atirou: «Já não há para onde Fugir.»