agosto 19, 2010

Falta de intelegência não nos ouvirmos

Passaram meses e meses, a marcha imperial do tempo que cavalgou sobre aquele ultimo instante em que te tive nos braços, mas o que são todos estes dias comparados com a intensidade daqueles em que estiveste perto? Cada segundo desses dias tornou-te parte de mim, em cada segundo, em pequenos e enormes gestos, ficaste bem dentro daquilo que sou. O tempo que passa cada vez me dá mais a consciência disso, paro para pensar e percebo que não tenho medo nenhum dessa mudança que foi tão subtil e ao mesmo tempo tão avassaladora. Não tenho medo daquilo que deixaste em mim, respeito-o, sinto-o momento a momento, sorrio com a malandrice de quem pensa controlar toda a situação. Essa doce ilusão que me tem guiado na vida em tantos momentos, ingenuidade tanta vez mal disfarçada e uma muralha que sempre caiu como um castelo de cartas. A intensidade dos dias que passámos habita uma mansão dourada das minhas emoções, que este tempo ajudou a perceber que nem sempre foi a mais correcta, subjugada a um desejo enorme, um descontrolo tremendo de uma alma perante tanta coisa nova. Sim, foi um exagero que naturalmente sucumbiu aos factos ainda e sempre mais fortes. Hoje sei que faria muita coisa diferente, sem no entanto retirar uma única dose de magia, daquela força que dava toda a ideia de ser inquebrável, mesmo quando parecia ser toda feita de vidro finíssimo. Era assim o que nos uniu, uma muralha da China intensa e poderosa que percorremos com sorrisos mil, que terminou sem se saber bem até onde nos poderia levar. Tudo ruiu, com lágrimas que pensei que nunca iriam parar, com um vazio ruidosamente profundo, que deu lugar a uma paz, uma alegria consciente de poder sorrir imenso com os gestos, atitudes e pensamentos que ao longo do tempo fui capaz de tomar. Hoje e sempre fiel ao que disse desde o inicio e a olhar o futuro com o peito aconchegado naquele luar cúmplice de um sonho de uma vida inteira. Hoje as palavras outrora guerreiras custam a sair e partem já sob o efeito de uma derrota antecipada, numa mistura de perda de crença nesses sentimentos e na indiferença que o tempo torna assustadora. Não sei por onde anda esse meu espírito utópico capaz de tocar novamente o impossível, sinto que o perdi, que o estou a perder aos poucos, concentrado em alcançar outros patamares bem dentro de mim para depois sim estar novamente preparado para lutar por esse, ou por outro impossível, aquele que vai dar novamente sentido a tudo. Sim, porque tudo um dia vai fazer outra vez sentido. Vemo-nos por ai ….

Dói

Custam-me as noites. Mais que o resto.

agosto 18, 2010

Mimos

Mas eis que chega o mimo. Ah... o mimo. Os diminutivos sussurrados, as blandícias, os gestos escondidos, as palavras inventadas porque nenhuma chega para definir na perfeição os trilhos que a alma segue e as encruzilhadas onde se esgota. Os afagos pelos cotovelos, o amor que respinga e que ambos apanham em concha com as mãos, os dedos dos pés em flor. Ela, que o agarra por trás tentando abarcar-lhe a cintura quando se deitam e moendo-lhe as costas de beijos, traçando-lhe mapas húmidos na pele e às cegas, enquanto o sono hesita. O ambos se permitirem o ressono do outro, ele que não a manda calar quando a sinusite dela assobia na noite, e ela, que ligeiramente o abana no contratempo de um rouco profundo, apneico e aflitivo. Trocam-se juras enquanto se dorme, promessas esquecidas no dia seguinte, mas que nem por isso perdem a validade do primeiro dia, do primeiro olhar, das primeiras mãos: suadas e nervosas a desbravarem caminho no corredor de um quarto de hotel, numa cidade estranha. Ele, que às tantas ataca o frigorífico e que a ataca na cozinha, e que não sabe o que comer primeiro, e ela, que o arrasta quando as luzes cuscas da rua se acendem, a maionese aberta na bancada, a coca-cola a perder o gás, e pelo caminho até ao quarto um trilho de roupa interior onde a gata se enrosca e adormece, indiferente ao bulício carnal e ao perigo iminente do desmembramento do estrado esquerdo da cama king size, comprovando-se assim que o material sueco nem sempre é de primeira qualidade.

agosto 17, 2010

Arrumar a OA

Nos ultimos três anos o orçamento e as contas da Ordem os Advogados (OA) transformaram-se num instrumento político. Internamente ergueram-se entraves financeiros que imobilizaram a OA, debaixo duma algazarra que degenerou numa luta de poder. Externamente, este caos descredibilizou a Ordem, expondo-a a ataques violentos, uns dirigidos á auto-regulação, e outros exigindo a cassação do interesse público.
A polémica em redor da renumeração do Bastonário foi bem espelho desta balcanização. O bastonário sequestrou o cargo á exclusividade e criou para si um subsidio de reintegração (mais de quarenta mil euros, a receber inclusive quando cessar funções).
No campo oposto estiveram aqueles que apedrejam a remuneração deste bastonário, para depois nomearem um candidato que exige ser remunerado.
Sempre me bati pela remuneração do Bastonário, porém o próximo Bastonário tem de sarar este ferida. Tem de criar condições para que este remuneração possa voltar a ser consensual.

agosto 12, 2010

Frase

"É tão absurdo dizer que um homem não pode amar a mesma mulher toda a vida, quanto dizer que um violinista precisa de diversos violinos para tocar a mesma música."

agosto 11, 2010

Já não há para onde fugir



O homem já havia enchido o depósito do meu carro e verificado a pressão dos pneus. Tinha um daqueles olhares de quem viu mundos e voltou para contar.

‘Se quiser, tiro-lhe esta mosquitada do vidro! ’
O homem que proferira esta frase naquela tarde abrasadora de Setembro já havia enchido o depósito do meu carro e verificado a pressão pneus. Tudo com uma ligeireza que dificilmente poderia atribuir a alguém na casa dos sessenta. A pele tisnada e um corpo vigoroso eram apenas desmentidos por um olhar fundo e meigo. Daqueles olhares de quem viu mundos e voltou para contar. Disse-lhe que sim, que me fizesse o favor de dar uma limpadela no para brisas. Seria um pretexto para lhe dar algo mais quando pagasse sem que se sentisse humilhado. A nobreza da alma vê-se por fora, e os seus gestos eram pragmáticos e lestos de alguém habituado aos trabalhos duros que a vida vai impondo.
Perguntei-lhe se era dali, daquele remoto lugar no Alentejo, sabendo eu que fosse qual fosse a resposta, o que é relevante num percurso não é o local de nascença mas onde se foi encostando o corpo ao longo do caminho. «Sim», respondeu, «mas fugi para Lisboa porque desde os 5 anos aqui verguei na lida desta terra que devolve pouco e exige tanto.» A tatuagem fundida no braço esquerdo, e que poderia ser uma serpente ou uma frase ilegível, pareceu contrair-se. Sem ter ido sequer à escola porque a não havia, tinha escapado aos 12 aos rigores do chão alentejano e ao afecto paterno, se este tivesse existido. Deambulara pela capital onde conseguira trabalho numa adega ali para os lados de Santa Apolónia. Aí conheceu prostitutas, perdidos, bêbados e viajantes sem destino e de origem duvidosa. Tornou-se um deles quando se juntou a uma trupe de circo que parara para se refrescar em tinto de pipa. Fugira uma vez mais. Foi aprendiz, malabarista, acrobata, ajudante de cena, cavaleiro, mimo, mágico, porteiro, vendedor de pipocas e finalmente, a profissão que lhe ficaria colada na pele melhor do que qualquer uma das muitas tatuagens, Palhaço. Correra o País e até a Espanha tinha ido.
E quando fazia de Palhaço rico usava o sotaque daquele país para sublinhar piadas às quais a miudagem retribuía num alarido que lhe alimentava o corpo e o sonho. Palhaço foi toda a vida, mesmo quando na Guiné evitava premir o gatilho da sua G-3 no receio de matar o inimigo oculto. Embora soldado, soldado nunca foi. E de lá fugiu, pouco antes do 25 de Abril, que o havia de indultar da pesada carga da deserção, para ir viver no Senegal. «Nenhum Palhaço pode odiar», repetia para justificar mais esta fuga. E em Dakar fez uma vez mais de tudo para que a fraqueza o não levasse. Embarcadiço num pequeno veleiro, transportava café, cabras e contrabando entre as pequenas ilhas vizinhas. Numa delas teve finalmente a oportunidade de regressar a Portugal.
O barco Amor de Mãe andava na pesca do atum e voltaria a casa nesse mês. Embarcou e foi pescador, marinheiro e estivador. Na década de oitenta, já o país não era o mesmo, e nem as suas tiradas de Palhaço rico num espanhol de fronteira surtiam efeito junto de plateias que agora preferiam a nudez das trapezistas. Agora limitava-se a levantar e a recolher a tenda, espetar ferros e esticar cordas dando-lhes nós que aprendera no mar. Voltou à arena, mas para limpar o recinto dos dejectos de cavalos magros e tigres adormecidos. Sem mais que fazer, decidira tornar a casa. Chegou à sua vila de noite e adormeceu à porta da que tinha sido a sua casa. O posto de gasolina estava em construção e foi onde o barulho da azáfama que despertou. E aí arranjou trabalho.
Agora que acabou de limpar o último mosquito com minúcia de artesão, acabou de limpar o último mosquito com minúcia de artesão, acabou também de me contar a sua história. «Aqui estou vai para 20 anos, saiba o senhor.» E antes que eu cometesse a imprudência de dar gorjeta a este Palhaço que só buscava dignidade, olhou em redor, abriu os braços queimados e exibiu uma vez mais tatuagens indistintas. Apontou a imensidão em volta e atirou: «Já não há para onde Fugir.»

Um contra o outro!


agosto 04, 2010

Dóis-me

Dói-me. Dói-me muito. E não sei onde. Dói-me quando olho para ti, quando te vejo já ao longe, de anel encarcerado entre os teus dedos tão monstruosamente pequeninos. Dói-me saber que só te volto a ver quando já for tarde, e quando a dor se cansar de tanto me cansar. Tenho as mãos suadas e o coração a transpirar de tanto dar voltas e revira-voltas.
Dava tudo para saber estancar o palmo e meio de rasgo que me fazes na carne, não para o fazer, mas só para saber como actuar em caso de extrema urgência, que de urgência já eu vivo.
Dói-me muito, mas não sei onde. Se agora mesmo entrasse nas portas cansadas de um qualquer hospital, ficaria dia e meio para explicar onde e o que me dói. E ainda assim, dia e meio depois, estaria exactamente no mesmo ponto da conversa. Estaria de frente para uma bata branca, curvado de dores, de soro a violar-me o braço e o sangue, e de coração semi-risonho, como uma criança que faz das suas e olha para o lado para que ninguém a veja. "Juro que me dói senhor doutor, juro-lhe." De que vale explicar uma dor a quem nunca a sentiu?
A dor que me causas passa os limites de cinco países juntos.
Apetece-me beber-te a conta-gotas.
Dói-me. Dói-me muito. E quando me disseres onde, vai doer-me muito mais.