30/06/2010

Portugal vs Espanha

De um certo ponto de vista, é comovente ver a selecção do nosso país ir de uma forma tão empenhada de encontro aos nossos desejos: isto correu de uma forma tão perfeitamente previsível que até parece que foi por acaso. Não foi. Nós já sabíamos que depois de ganhar e de não perder, Queiroz tem como terceiro objectivo no futebol o perder por poucos. Esse espírito foi passado de uma forma admiravelmente eficaz para os jogadores que foi sem esforço que estes cumpriram aquilo que deles se esperava: darem-nos razão. Antes da partida para a África do Sul já toda a gente avisava: o Pepe está sem ritmo, o Deco, para além de velho, nunca teve respeito pela selecção, o Ricardo Costa não serve nem para titular do Sporting, o Ronaldo não vai fazer nada sozinho; é, pois, com alguma satisfação que constatamos que o Pepe estava sem ritmo, que o Deco, para além de velho, não teve respeito pela selecção, que o Ricardo Costa nem para titular do Sporting serve, e que o Ronaldo não fez nada sozinho (nem, a bem dizer, acompanhado). Por isso, e em vez de nos atirarmos ao Queiroz e à sua cobardia táctica, aplaudamos o facto de, pela primeira vez, e sublinho, pela primeira vez, Portugal ter feito um campeonato do mundo normal - 1966 foi a glória, 1986 foi a vergonha, 2002 foi a vergonha, 2006 foi a glória. Claro que poderíamos ter tentado ganhar este jogo à Espanha, mas isso só aumentaria o nosso sentimento de frustração: ai se aquela bola tivesse entrado. Assim, não há ais nenhuns e podemos seguir com as nossa vidas. Mas quem precisa de um consolo - mais do que um alvo - fica a nota que perdemos com a mais do que provável campeã do mundo. Teríamos perdido com o segundo classificado (o Brasil), o terceiro classificado (a Alemanha), ou o quarto classificado (o, err, Uruguai), mas eu confio no poder de acreditarmos nos nossos sonhos. Bem, e uma vez por todas, silenciem-se agora todos aqueles que me diziam, que a Espanha não tem equipa para nós. Ora, eu não sei se me entendem, mas o que se passou hoje depois do golo, quando eu estou no balneário tem um nome... Chama-se 'chocolate'.
Ps: Xavi, Iniesta, David Villa... Que sonho que foi hoje! Obrigado.

25/06/2010

A carta

Recebi uma carta de amor manuscrita. Um sobrescrito branco, com um selo verdadeiro carimbado pelos Correios de Portugal, o remetente (tu) no canto superior esquerdo, as palavras a descaírem ligeiramente para a direita. E em baixo o meu nome completo (poucos, os que têm o privilégio do meu nome completo), a minha morada, o código postal certinho. Acho que a última vez que recebi uma carta, destas que vêm por carteiro, foi há quase um ano ou mais, e era de uma amiga (eu e as meus colegas enxotávamos assim a distância: com cartas virulentas e demolidoras sobre os raparigas, mesmo aquelas de quem gostávamos). Pouco tempo depois, receberia um telegrama de uma namorada desesperada, que a minha prima recebeu à porta, leu alto entre stops e eu quase morri de vergonha. A partir daí, foi tudo entregue em mãos, bilhetinhos, promessas de amor eterno, uma mulher deslumbrada com os filhos que iam saindo de dentro de mim, sonhos transformados em poemas, desenhos rabiscados em guardanapos de restaurante, ah e o futuro todo pela frente, até um dia. Hoje, agarrados ao computador para todas as tarefas, incluindo as que nos divertem, nem nos lembramos que cada um de nós tem uma letra. Assertiva, suave, indecisa, torta, hesitante, difícil, de médico, maiúscula, cursiva, divertida, redonda, severa, poética. Uma letra que, segundo alguns, diz muito sobre o que somos. Eu não sei o que diz sobre ti a tua letra; ao contrário da minha, que é cheia de arabescos (um dia mostro-ta), pareceu-me normal, pouco esforçada, um bocadinho arrastada, a letra de alguém que nunca cresceu verdadeiramente. Mas sei o que diz sobre ti a carta que me escreveste, embora, é claro, não o vá dizer aqui (elas que se escrevam uns aos outros).

Credits (1)

Hoje apetece-me desaparecer. Mas não é um desaparecer qualquer, é um daqueles que implica umas quantas anestesias gerais, e dois parezinhos de comas induzidos. Apetece-me desistir, mas não posso, porque amanhã ainda dói mais, e depois já nem eu me lembro do quanto desistente estou por hoje.

24/06/2010

Mundial 2010

Lamento profundamente a morte de Saramago: é que já vamos no terceiro dia em que o Mundial não ocupa totalmente os espaços noticiosos.

Lamento também profundamente que a França não passe da fase de grupos: não consigo evitar um sentimento nostálgico sempre que o circo abandona a cidade.

Lamento ainda mais profundamente as arbitragens que têm acontecido no campeonato do mundo de futebol, porque houve aqui uma mudança de paradigma e ninguém nos avisou: o espectador já se habitou a más arbitragens que beneficiam a equipa da casa, não estava portanto preparado para esta aleatoriedade selvagem, que tanto permite que um jogo de futebol se transforme num jogo de andebol (Fabiano), como permite que um jogo de futebol se transforme numa palhaçada (a expulsão de Kaká) sem a França presente, o que é muito desarmante.

Agora, o que eu não lamento nada é o empate entre a Itália e a Nova Zelândia: ah ah ah ah ah ah ah.

22/06/2010

Atenção, sem generalizar

"A ralé não é uma espécie em franca expansão. Já existe há algum tempo, já convivem na sociedade de elite. Queres entrar, conhece-las. Pessoas (?) que se mostram em público como detentoras de um carácter sem pingo de mancha, de uma índole digna de anjo acabadinho de cair na terra. Dentro de portas, quando a cortina se fecha são da pior escória. Mentem, inventam, roubam até. Depois voltam a pôr a cabeça fora da cortina e fazem um sorriso inocente à espera de mais aplausos, um ar cândido, ou pior, de coitadinhos à espera da simpatia alheia. Usam todos os truques para tirar do sério os outros, os que não pararam no tempo, no caminho. Despertam nos outros os piores sentimentos, sentimentos iguais a si próprios, vingativos. Espalham dor e mágoa, semeiam ódios de sangue. Às vezes cai-se no engano de achar que talvez se lhes dissessem na cara a merda que são elas acordavam e tornavam-se finalmente em pessoas em vez dos animais que na realidade são, mas não, é puro engano, a ralé não tem consciência, não tem sentimentos nobres por ninguém e triste mesmo é saber que nem dela própria, senão não seria ralé.
As artimanhas dignas de uma novela espantam quem não conhece o poder de alguém ralé, afinal a ficção é ficção e a realidade é a realidade. Puro engano. As artimanhas são as mesmas, apenas as vemos de um dos lados e não de todos os lados como na TV. Capazes de criar armadilhas ardilosas para quem não tem no olhar o alcance da maldade humana. Passa-se rapidamente do estado de filha pródiga, de menino acólito, mãe de família ou pai extremoso ao estado de cabra da pior espécie, dignos de acabar a novela a levar um enfardamento à medida. Brincam com a vida das pessoas, com o ganha pão de quem dele precisa para alimentar a prole, difamam sem dó nem piedade apenas com o intuito de se continuarem a ver pelos olhos dos outros, porque ao espelho nem vão, com medo da imagem decadente que sabem que têm. No fundo sabem.
Mas importante que identificar todos estes 'mágicos', passa mesmo por (olha para mim a mudar de assunto) saber dividir e encontrar uma boa amizade no meio dos destroços de uma elite afogada no seu próprio ego.

Já dizem muitos autores, em muitas obras, que O maior inimigo da amizade é o amor.

mas, por outro lado,

O maior inimigo do amor é a vida. São os dias. As noites. Os amigos. Os filhos. As casas. Os carros. O trânsito. Os dias de sol. A chuva. Os dias bons. A doença. A tristeza. O dinheiro.

O amor já tem tudo contra ele à partida! Portanto se a amizade tiver apenas um inimigo, terá grandes hipóteses de sobreviver. ;)"

Ivo Almeida in http://andredgarmartins.blogspot.com/

20/06/2010

In love way of life (1)

Remar até ti, é a mais sinuosa viagem de todas, que me enche de certezas de ter o mundo como recompensa. Dá-me o paraíso, levando este teu coração@ Amo-te.

I.A

Amizades


Voltei! Tanta ausência, tantos comentários por aceitar e o dobro das desculpas por pedir. Voltei, apenas mais velho. Amizades.
Todos os amigos de alguém usufruem do direito ao avanço insensato de uma guarda pretoriana, que são os amigos que têm. A todos os amigos de alguém é devido o gozo mutual da fidelidade canina, para o bem e para o mal, para o certo ou o errado. Virados uns para os outros, na absoluta concentração da linguagem simbólica e simbiótica que os une, os amigos (para o serem deveras) têm que estar em pé de igualdade: a mesma fragilidade desnudada e o orgulho em idêntico plano de remoção. Amigos não existem, nem por baixo, nem por cima (caso em que falamos de outra coisa). Dizer-se que se gosta muito dos amigos, como um miúdo que descobriu a pólvora numa redacção infantil, hesitante por isso nos pontos finais, não passa de redundância desconfiável. Embora o amor pelos amigos possa ser redondo, porque por vezes acaba onde um dia começou, depois de cumprida a circunvalação de todos os segredos. A amizade deposita-se nos outros como na relva: há que andar com cuidado para não a pisar e contornar-lhe os melindres, como se de vidros partidos.

14/06/2010

Pessoas ao telemóvel

Olha eles! Ainda bem que vieram, por se fosse escrever para aquele senhor de hoje de manhã no punto amarelo, com o bigode cheio de caldo verde, eu não fazia. Acho que tem de haver o mínimo de respeito. Hoje queria dirigir-me a todas aquelas pessoas que gritam ao telemóvel consoante a distância da pessoa que está a telefonar. O fenómeno nem é novo, mas quando acontece numa viagem de alfa pendular durante 3 horas, ganha toda uma nova dimensão.
Começa logo pelo toque do telemóvel, sendo certo que hoje em dia, já é raro encontrar um toque normal, portanto, o toque é sempre uma mistura de ritmos latinos e o camião do lixo. É uma mistura de sons de umas colunas roubadas do festival sudoeste, por isso mesmo, de 10 em 10 segundos uma pessoa tem de levar com 10 de concerto.
Depois a besta atende. Mas a besta não atende como atende um ser humano com ouvidos; a besta atende como que se uma zebra lhe estivesse a mastigar os testículos. Portanto, passa logo de um normal «estou», para um «ESTOUUUUUUUUUUUUU». Isto é só para o menino avisar a carruagem numero 2 que tem um telemóvel, e que não está ali para brincadeiras. Se o mundo acabasse a atender chamadas, aquele menino era o ultimo a lerpar. E depois lá conversa com o outro mono que está do outro lado da linha, mas tudo muito alto porque esta gente acho que sussurrar é p'ra princesas, e homem que é homem tem é de gritar. Bom, isto passa-se e chega a fase em que surge a pergunta fatal, 'tou, estás-me a ouvir?', e logo de seguida surge um outro fenómeno da natureza que é a pessoa responder «não». Ou seja, a besta dois, que é a besta do outro lado do telefone, ouve a pergunta «estás-me a ouvir» e responde «não». O que faz a besta um? Sendo arraçado de calçada portuguesa, não entende que o problema é haver pouca rede, e pensa que é por estar a falar baixo. Começa então a falar no volume que falaria se recebesse uma chamada de Angola. Mas não é uma Angola qualquer, é aquela Angola mais do interior onde ainda tem que se falar mais alto.
Ao meu lado ia um boi que lia livros assim (sussuraros). Para quê? A história vai do papel para os olhos, e dos olhos para o cérebro! Qual a necessidade de os levar até á boca? Enfim!