30/04/2010

Do camarote

De vez em quando, espreito-os. Ela, ocasionalmente, a destapar o que a consome. Ele, jogador, compulsivo, procrastinador, vaidoso, precisa da atenção dela como de pão para a boca, precisa daquele desalento de quem rodopia no escuro, mas mantém a distância como um falso tímido, para não contaminar a doce benesse da ignorância em que ambos se mantêm. Já vi isto, antes: ela, coitada, de vez em quando derrama-se, entupida e frustrada, desasada, mal-amada, deprimida. E então escreve. Escreve sobre a verdade falsa que os une, a distância que os separa e sobre a etérea familiaridade que julga encontrar nas palavras dele (e que lhe são, as mais das vezes, efectivamente dirigidas). Acha que, na pior das hipóteses, ficarão amigos para sempre e trocarão presentes e mimos e palavras, cada um no seu canto do mundo, num lirismo sedutor que lhes adoça as margens. Contenta-se com uma pequena parte dele e mesmo essa não a conhece: no fundo, sabe que é adulada por um personagem fictício. Dá-lhe o nome de amizade, porque do amor arredou-a ele desde sempre, apesar de lhe falar muito no assunto, como quem não quer a coisa. Promete-lhe afectos sob a forma de fantasmas, mas daqueles que nunca foram vivos, sombras que não vêm de lado nenhum, que nasceram de dentro dele, por geração espontânea. Mas voltemos a ela. Já sabemos que anda desasada, contendo-se a esforço no registo impessoal, mas regurgitando de tempos a tempos aquela funesta paixão, que de imediato limpa e enxuga, com uma urgência doméstica. E ele a responder-lhe, gracejando, como se a confissão tivesse sido mero exercício de estilo. Já vi isto antes, eu (oh!, se vi). Ela, desconsertada, sem saber se leva ou não a sério o remoque, se retorque em público ou se se espraia em privado, telefonema, mail, mensagem privada, num chat? A ela, não lhe agrada o tom dele, pudera, o que escreveu saiu-lhe de um sopro, de uma insónia demente, é um desejo maior que ele agora conspurca, como se não soubesse da gravidade desse amor, que nunca meteu pele nem cheiro, que não é de lado nenhum, de ninguém, que ela apanhou na rua, orfão de pai e mãe, um sopro de amor (apenas). Ele usa-a como desvio, terapia de substituição, talvez; sabe que nunca ficará com ela, já lho disse, mas -lo de um modo reticente, como se ele próprio não acreditasse nisso, lançando nela uma breve semente, uma possibilidade de corpo. Não sei se ela sabe como são infundadas as esperanças que finge não ter. Claro que não se conhecem, mas de vez em quando, escrevem para os outros fingindo que algo aconteceu. Histórias, desculpam-se, ficção, podia ter sido mas não foi. Vegetam numa mentira, cada um na sua, mas são ambos patéticos: ele a fingir que um dia sabe-se lá, ela a fingir que acredita, e eu (e não só) a assistir, de camarote. Assisto à crueldade dele e à aparente ingenuidade dela, ao entusiasmo adolescente que tenta domar e ao negrume que de quando em vez lhe tolda a pose, quando a realidade a atinge em cheio. Vejo o que se passa, e tenho pena dela. Encontram-se ambos no exacto ponto fulcral, egocêntrico, egótico, de toda uma existência; estão no umbigo do mundo, no centro da mira, no cerne mais doentio da alma e têm, seguramente, pelo menos, um ponto em comum: ela sofre por ele; ele, também.

22/04/2010

Persuasão e o direito

Em conversa banal, que de banal tanto me abriu o apetite para falar um pouco sobre a persuasão empregue por quem melhor a sabe usar. Os advogados.
A capacidade de influenciar pessoas sempre foi um dos factores de sucesso no direito, e foi sem dúvida de tudo o que mais me cativou. Desde os mais remotos tempos, os juristas com grande capacidade retórica se sobressaíam nos tribunais apelando para o poder da oratória, ora vencendo causas difíceis, ora construindo relacionamentos e influenciando a sociedade. Grande parte dos advogados consagrados têm em comum uma grande capacidade de persuasão.
Dada a importância estratégica da persuasão para alcançar o sucesso no sector jurídico, cabe aos advogados conhecer melhor esta ciência e procurar aperfeiçoá-la, tornando-a uma ferramenta útil tanto no exercício da profissão quanto na conquista e fidelização de clientes. É totalmente impossível abdicar dessa mesma técnica na vida social, e deixa-la apenas na profissional.
Embora seja um termo pouco usado no dia a dia, e conceito raramente difundido na literatura, a persuasão tem um poder incalculável, e pode ser utilizada tanto para realizações nobres quanto para enganar as pessoas. Profissionais como médicos, advogados, engenheiros, sacerdotes e políticos podem praticá-la para influenciar positivamente seus clientes ou seguidores, assim como vigaristas, maus políticos e comerciantes escrupulosos utilizam-na para ludibriar pessoas de boa fé.
A origem da palavra persuasão vem do latim, “persuadere”, que significa aconselhar, ou numa tradução livre, “aconselhar alguém até que este concorde em fazer o que queremos”. Muitos confundem persuadir com convencer, mas é um engano, pois são conceitos bem diferentes. Enquanto convencer é derivado da palavra “vencer”, e significa que o convencido foi, antes de tudo, “vencido” pela argumentação oposta, persuadir, ao contrário, significa aconselhar, levando a pessoa a realizar alguma acção.
Tentar com um exemplo:
- Uma pessoa pode estar convencida da importância de realizar alguma actividade, e, no entanto, não fazer nada a respeito. O advogado pode tentar convencer o cliente de que o seu escritório tem as melhores condições para atender as necessidades dele, no entanto, de nada valerão todos os argumentos apresentados, pois o cliente só contratará o serviço se for persuadido a fazê-lo. -
Ao contrário do convencimento e da imposição pela autoridade ou força física, a persuasão lida com a vontade das pessoas. Ela estabelece-se através de uma comunicação suave e elegante. A pessoa persuadida age de acordo com a vontade do persuasor, mesmo que seu intelecto não esteja convencido da verdade ou da importância do assunto. Por isto, a persuasão é uma arma poderosa e ao mesmo tempo perigosa. Quem não conhece inúmeros exemplos de políticos que, mesmo sendo reconhecidamente corruptos e mal intencionados, ainda assim vencem eleições sobre candidatos íntegros e honestos?
A persuasão é uma técnica que pode ser aprendida por qualquer pessoa através de treino. Assim, podemos afirmar que a persuasão é uma ciência, pois os seus conceitos acompanham uma lógica, têm uma estrutura e, portanto, pode ser desenvolvida. Na verdade praticamente todas as pessoas pensam que têm alguma capacidade de persuasão, e utilizam-na diariamente para tentar conseguir algo daqueles com quem convivem. Claro que alguns têm esta habilidade inata bem mais desenvolvida que outros.
A mim fascina-me, e quero sempre mais. Posso dizer que a persuasão tem também um lado artístico, pois quando aprendemos a utilizá-la de maneira natural, graciosa e inconsciente, sem mesmo pensarmos que estamos a persuadir alguém, ela torna-se uma arte. (Muito venenosa). Todos nós conhecemos inúmeros exemplos de comerciantes, vendedores, líderes religiosos, políticos e, porque não dizer, vigaristas, que tem uma “lábia”, muito eficaz. São pessoas que possuem uma comunicação poderosa, que envolvem os interlocutores com seus “conselhos”, e acabam por conseguir exactamente o que querem.
O velho golpe do “bilhete premiado”, aplicado por vigaristas há décadas, é um exemplo clássico do poder nefasto da persuasão. Mas também podemos citar inúmeros casos de líderes que, com seu carisma e poder de persuasão, conseguem motivar as pessoas, mobilizando-as para realizarem feitos e superar dificuldades em momentos difíceis.
Dois exemplos clássicos são os lideres Martin Luther King e Mahatma Gandhi (ambos formados em direito) que operaram revoluções pacificas nos seus países, sem utilização de qualquer poder ou força, apenas usando a palavra falada.
Os maiores persuasores são, antes de tudo, grandes conhecedores da alma humana. Eles conseguem fazer uma “leitura” do pensamento e dos sentimentos das pessoas, descobrindo os seus desejos e necessidades, muitas vezes ocultos, e baseados neste entendimento utilizam argumentos que irão influenciá-los.
O presidente Getúlio Vargas, foi um mestre na arte de persuadir. Existem varias histórias a seu respeito, mostrando sua arte de influenciar as pessoas.
Getúlio conhecia profundamente a natureza humana. Ele sabia que era inútil criticar e contradizer os outros. Era hábito seu prestar atenção às pessoas, interessar-se pelos seus problemas, dar razão a todos e, no final, as pessoas fazerem o que ele queria. Quais são as principais técnicas para tornar-se persuasivo?
Não se pode contar tudo, nem mesmo que se consiga.
Acreditamos que desta forma, o desenvolvimento da capacidade persuasiva será um factor da maior importância para o sucesso dos operadores do Direito.

13/04/2010

Triste cama a minha

Ontem levei um soco no estômago. Não literal, mas daqueles que ainda doem mais ainda. Rebolei de abraço forte em mim, na tentativa que passa-se.
Agarro-me ao dia com unhas e dentes, e tento passar de raspão pela noite. A noite é um trapézio sem rede, um bocadinho de diabos à solta e, nela, os meus medos são ancestrais, gerados no princípio do mundo. Sei que as coisas não são as mesmas no escuro. Ensinam-nos de pequenos que são, mas não: esta cama não é apenas um colchão ortopédico assente num estrado encostado a uma cabeceira florida: a partir de hoje, é uma eira de mágoas e um amontoado de vigílias.

12/04/2010

Como é possível?

A professora pediu ao aluno que não deitasse as cascas da banana que estava a comer (o aluno, portanto, comia na sala de aula) para o chão. O aluno não gostou e atirou com um dossier e o mais que tinha à mão à cabeça da professora, que teve de receber tratamento médico. Os professores fecharam a escola, exigem medidas de segurança, polícia à porta, pedem psicólogos, que não aguentam a pressão. Inquiridos os paizinhos das outras crianças, dizem que, às vezes, os professores exageram e que as crianças têm de se defender, que elas é que sabem e não mentem e que, se os professores batem nos alunos, é natural que também levem. Ora eu, não duvido nem por um bocadinho que a algumas professoras do secundário lhes fizesse bem levarem com uns dossiers pontiagudos pelas cabecinhas abaixo e que a ajuda de um psicólogo ou mesmo de um psiquiatra (e, até, um eventual internamentozito temporário) também viesse a calhar, dadas algumas amostras de higiene mental menos que precária que têm chegado ao meu conhecimento (via blogues, então, nem vos conto). Mas, ouvir assim a aleivosia ignorante do povão a vomitar postas de pescada para os microfones da tevê desperta-me invariavelmente instintos oligárquicos, plutocráticos, aristocráticos, whatever: mas o voto desta gente vale tanto como o meu, porquê?

10/04/2010

Desculpem

À minha família, aos meus amigos, aos conhecidos, aos que apenas me lêem - e a todos um pedido de desculpa por não ter podido (ainda) responder pessoalmente a tantos mails, de pensamentos positivos.

Momento da verdade

Haverá algo mais ridículo do que o momento da verdade? Sim, as pessoas que lá vão. Têm a ajuda de os familiares carregarem no botão vermelho e alterar a pergunta. Nunca imaginei tamanha estupidez. Tendo em conta que as questões são de dilemas 'sim' ou 'não', decerto torna-se complicado de adivinhar a verdade, quando o botão é pressionado.

Fazes falta II

Ando a viver no mundo da lua, aliás meu território habitual. Por entre as mochilas novas dos miúdos, os horários, os furos, os cadernos, os dossiers de lombada grossa, os manuais, os fatos de ginástica e os professores novos, flutuo. Quase nunca cá estou, deambulo, distraio-me, perco tempo em contemplações, interiores e outras.Tenho um mundo só meu, dentro da minha cabeça, onde resolvo todas as coisas. Consigo ser de um idealismo risível, patético. Dentro de mim tudo se encaixa; não há desencontros nem gente perdida; há apenas momentos perfeitos, como nos filmes. Respondo assim, com sonhos em catadupa nos olhos, que nem me deixam ver a estrada quando atravesso, aos encontrões pouco semânticos que a vida entendeu dar-me por estes dias. Fazes falta.

Fazes-me falta...

Uma insónia como há muito não tinha. Os dedos, enferrujados e preguiçosos, a começarem a desenhar palavras no teclado, parece que já nem me lembro de como se faz. E era bom, não me lembrar de como se faz. Esta coisa da escrita é para gente solitária. Ou, ao menos, para gente sozinha dentro que vem aqui aquecer-se, no borralho das suas palavras ou no das palavras dos outros. Quando coisas boas nos preenchem os dias, nem nos lembramos de ficcionar as noites. Escusado será dizer que isto é quase de certeza o fim de um feliz interregno.