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Espantalhos

Sempre fui citadino, e ainda hoje lamento, não ter tido «uma terra». Nostalgia de quem nascia num chão verdadeiro, enquanto eu, nascia num vaso. Em criança, as férias na terra, passavam pelo Minho, e provocavam-me larga sensação budista, acompanhado de claustrofobia inerente aquele fim de mundo. Em viagens para o norte, em películas de aldeias da beira, sempre me fascinaram os espantalhos, figuras solitárias no meio do campo, espécie de bonecos de neve em tempo de verão. Assim como os ditos «cabeçudos» do Carnaval em Vilar de Mouros, e na avenida principal de Almada, os espantalhos provocavam-me medo, com o braços abertos e mãos de palha. Eu sentia uma profunda afinidade com os passarinhos, para quem as pessoas crescidas, inventavam papões de assustar. Para afastar tremores, sorria perante a ideia de que os pardais, espertos como são, ignorassem a ingénua trapaça dos homens que plantam ao sol pobres de ossos de pau, vestidos de restos que ninguém quer.

Adaptado de «Sinto muito» de 'Nuno Lobo Antunes'.

1 Coments:

Carlos said...

Já ouvi as melhores desse livro. Mas também digo-te que não te imaginava a lê-lo. Não é a tua cara.

 
TNB