A modernidade arranca-me anos de magia.

Sinto-me saudosista de um tempo que não vivi. Nostálgico do ‘respeitinho é bonito’, eu gosto, e não só. Também fica bem. Melancólico da vergonha de cortejar, da ansiedade do soneto perdido, da apresentação com três nomes, do cumprimento em osculação da mão direita da Senhora. Porque das meninas não se fala. O levantar do chapéu liso do senhor na chegada, a ligeira oscilação de joelhos da Senhora na partida.
Hoje saio à noite, e a modernidade arranca-me anos de magia.

Mudança da hora

Não sei se sabem mas a hora muda esta noite!
Uma para trás assim como quem não quer. Muda e diz que quando for uma da manhã, volta a ser meia-noite. Impecável. Assim vai bem com tudo, e não envelhecemos tão depressa.


Eu sei Lili, uma hora não substitui o 'peelling', mas o certo é que também nunca que pagou impostos para a hora mudar. Por outro lado mergulhar a frontal numa banheira de ácido tricloroacéptico, ainda tem os seus custos. É de aproveitar, e agradecer amanhã na missa. Mas uma hora antes, atenção, ou já só vão a tempo de papar a hóstia, e cumprimentar a irmã cheia de barba na ‘paz de Cristo’.

Só há aqui uma questão quem e faz espécie. Isto de à uma da manhã voltar a ser meia-noite, significa que há risco de aturar mais uma hora do ‘extra da casa dos segredos’?

Bem, façam lá atenção a isso que o país não está para aventuras.

Despedimento pelo facebook

A lei tem obrigatoriamente de se flexibilizar, cobrindo a modernidade e transformações que a sociedade impõe.
Já há algum tempo que era por mim aguardado uma causa neste sentido, e vejo agora um acórdão que improcede um recurso de despedimento ilícito, estando em causa um ‘post’ no Facebook.


A questão levantada ao julgamento, passou por saber se o ‘post’ que o Autor publicou no mural da sua página pessoal do Facebook se insere na chamada esfera pessoal, ou se, por outro lado, o seu conteúdo assumiu natureza pública.


Leitura fascinante para os interessados, onde os desembargadores se mostraram à altura dos conceitos cibernéticos que todos os dias utilizamos.


Acórdão na íntegra em: 
http://www.dgsi.pt/jtrl.nsf/33182fc732316039802565fa00497eec/ecca98e591fa824780257d66004b4283?OpenDocument


Ps: Evitava-se a prolação de despacho de aperfeiçoamento do recurso, e já agora, NÃO PARTILHEM ESTE TEXTO AMIGOS!

Autos de fé em 2014

Em meados de 1475 realizavam-se em Portugal os aclamados ‘autos de fé’, que como se conhece, expunham situações de tortuosidade a pessoas inocentes, queimando-as em praça pública, onde o que era a inquisição da justiça do momento, tornava-se por sua vez, no evento atractivo da época.


Em 2014, há um programa chamado ‘Prós&Contras’, que tem duas bancadas, e uma plateia. Na bancada da ‘direita’ lá estão as marionetas com os cordéis escondidos. No fundo, é uma atracção na busca do share, e a cremação exposta a quem deveria ser Nuno Crato, Teixeira da Cruz, Maria Luis Albuquerque, Miguel Macedo, mas no fundo nunca chega a ser. Marionetas.

Idade limite de relações sexuais

Sempre que há uma decisão, naturalmente surgem apreciações criticamente opostas a esta. Ter capacidade de decidir, é, ou deve ser, ao mesmo tempo, ter consciência das inúmeras possíveis discordâncias de propósitos.
Não estou, nem vou debruçar-me relativamente à descoberta do ‘quantum indemnizatório’ do art. 564º do CC, porém, não me revejo numa especial e infeliz fundamentação do STA, servindo-se ainda desta para proceder o recurso interposto, respeitando o Art. 566º do mesmo diploma:

“Por outro lado, importa não esquecer que a Autora na data da operação já tinha 50 anos e dois filhos, isto é, uma idade em que a sexualidade não tem a importância que assume em idades mais jovens, importância essa que vai diminuindo à medida que a idade avança.”

Para consulta

Sondagens

Já não me rememorava o porquê de não atender chamadas em números privados, quando senão;


- «Dr. estamos a ligar-lhe para realização de um inquérito, relativo à intensão de voto nas próximas eleições autárquicas»


- «Bom dia. Disse Autárquicas?»


- «Sim. Só um momento. (…) Não, desculpe não são autárquicas, são as… outras.»


- «As outras, estou a ver».


- «Desse modo gostaríamos de saber a sua intensão de voto, sendo que é totalmente anónimo. As alternativas são entre o CDS –PP, PPD-PDS, PS, MPT, PEV, CDU e BE».


- «Frisou anónimo, mas chamou-me Dr.?»


- « Sim.»


- « Exacto. Disse MPT?»


- «Sim, é um partido… Daquele senhor que fala muito alto (…)».


- « (…) E que não tem representação parlamentar.»


- « (…) Então, qual é a sua escolha?»


- «Olhe, peço imensa desculpa, poderia repetir as opções?»


E é isto.

Avozinha, mulher da minha vida

Partiu. Partiu uma das mulheres da minha vida.

Abandona-me no local onde ocupa uma dor superior a cinco continentes unidos, no cerco onde as palavras não mais têm vivacidade e o riso é um luxo do passado.


Gritam todas as noites as memórias da ‘ida ás molas’, dos smarties em sofisticados calmantes de descanso soalheiro, e o aconchego do amor. Não do amor dito, comentado ou escrito. Gritam as nostalgias do amor exprimido, das mil e uma maneiras possíveis que alguém possui de gritar que nos ama.


Foi embora fragmento de mim, fracção da minha história, retalho do meu passado. Foi embora a professora, retirou-se a anciã, afastou-se a amiga, alienou-se a pequena mãe, transferiu-se a Avó, a minha Avozinha.


Com esta saída, fico cerceado de liberdade, por não haver eco do amor que te tenho.


Fica agora o sobressalto dos dias sem pé, a claustrofobia do metro e noventa dentro do frasco de formol. Só algo supera. O Orgulho incomensurável de te ter vivido.


Amo-te, e amar-te-ei até ao último suspiro de força que tenha para o libertar.


Partiu. Partiu uma das mulheres da minha vida.




António Marinho e Pinto, o Político

Não tenho peculiar apreço por desaprovar o comportamento de quem quer que seja, se o faço, que faço, é no preciso espaço assegurado à minha livre opinião, nunca acerando os limites do respeito e urbanidade.
Neste pequeno mundo, por vezes torna-se ingrato anotar relativamente ao desaplauso de uma pessoa de maior proximidade, seja ela social, pessoal, ou de outra natureza relacional, o que vai sucedendo.

O Dr. António Marinho e Pinto, Ex-Bastonário da Ordem dos Advogados, após a sua saída da Ordem dos Advogados, pautou por um discurso de apelação ao não voto, com uma greve à democracia. SIC. «Não sei se o povo Português não fazia melhor em fazer greve à democracia por um dia, e fazê-lo no dia das eleições (…)», e ainda SIC. «Não vou votar no dia das eleições porque o meu voto não adianta nada, só a abstenção envergonharia a classe política que destruiu o país», e não muito tempo passou para se tornar Eurodeputado, eleito através dos votos do Movimento do Partido da Terra. 


Desde então, de característico discurso acutilante, não o tenho visto fazer muito mais, senão colocar em causa a utilidade do Parlamento Europeu, no que cinge ao seu proveito, e ainda aos salários escandalosos que os Eurodeputados auferem.
No entanto, e entretanto, de uma só assentada impugna o que até à data tinha protegido. 


1. Ameaça a demissão de Eurodeputado, (Desrespeitando todos aqueles que em Marinho e Pinto votaram, creditando-o, e ‘oferecendo-lhe’ a possibilidade de auferir um dos tais salários escandalosos tão criticados, para exercer o seu cargo como Eurodeputado), porém, não abdica do seu salário.


2. Apontou bravuras a uma candidatura à Assembleia da República, e para o efeito, vai criar um novo partido político para concorrer às próximas legislativas. (Contrariando desta vez a inicial narrativa da responsabilização partidária, e do apelo ao não voto, da greve à democracia, onde aparentemente o voto afinal, já se calcula a sua utilidade).


3. Na senda das suas várias e últimas decisões, coincidentemente após esta manifestação de candidatar-se à Assembleia da República, manifestou-se relativamente ao paupérrimo salário dos deputados da Assembleia da República, apontando desde logo que abaixo de €4.800.00 não é um salário condigno para o cargo. (Sendo este, teoricamente superior ao do Primeiro-Ministro, não fosse ele esquecer-se do que vem recebendo).

Existe uma facilidade enorme para os portugueses escutarem discursos populistas, inflamados de retóricas apolitizadas de conteúdos, porém cheias de formas astuciosas. Mas uma coisa é certa, esse espírito de inocência messiânica do povo Português, que em sufrágio se pratica, não confere o titulo de vitima, tornando-se em cota parte cúmplice.