Cidadania no Portugal actual

Urge uma restruturação interna na base do nosso sistema de educação, potenciando a formação para a cidadania.
Temos vivido na senda de armas mal apontadas. Material bélico dispendioso e lubrificado, mas atestado de pólvora seca. Bem bonito para museu, porém inútil para abater as nossas crises. Certo, são várias.
A que trato hoje é a de Cidadania.


Enceta-se na escola primária quando um professor requer a caderneta do aluno (aquela verde que eu arrancava as folhas para a mãe não descobrir as queixas do professor Manuel), e escrevinha rude relatório referente à falta de educação do petiz. Aquele em que o ‘puto’ andou a saltar por cima das mesas, e a atirar afias à porta da sala.
Os pais não legaram, ele não apreendeu, a televisão não fortaleceu, mas o que é certo, é que no dia seguinte, despontam-se os pais gladiadores de uma honra violada, e apontam o dedo (e ás vezes facas) a tão malévolo docente que não sabe instruir nem controlar mais uma criança.


Há hoje uma impossibilidade absoluta de um grande número de cidadãos, em compreender que a escola é para formar, e a educação não desponta em apêndice de orgulhosos (senão arrogantes) títulos académicos.
É esta uma verdade que assisto desde a pré-escola até às salas de audiência de um qualquer tribunal.
Assisto aquando em instâncias de divórcio, o menor deixa de ser cúpula do amor, metamorfoseando-se em letífera arma de arremesso. Quando em sede de acção laboral a entidade patronal trapaça a confiança do empregador de 20 anos de casa, para que, com justa causa o despedir abandonando-o à mercê das faltas dos seus 3 filhos.


O problema de fundo não passa por sermos o povo do espertismo libertino, mas levanta-se especialmente quando esse ladear de regras, operam no ‘no matter what’, sem agravo nem apelo, amor nem compaixão. Sem princípios ou valores. Em jeito de quem não pagou renda, simula um sub-arrendamento ao amigo, para a acção de despejo sair forjada.


Em cada espaço, circunstância ou ápice das nossas vidas, é sabida esta inadaptação do cidadão em compreender os padrões comunitários. Pode até ir à missa ou reclamar do que está mal com o governo, mas a fim de contas, «a ocasião faz o ladrão» é um aforismo praticamente inabalável com a conjuntura actual.


Em ocasião que se tem licenciado exclusívamente para a estatística, neste país de Exmos. Dr.(s), (porque nada mais somos que números a tentar acompanhar as médias europeias, em modo “no matter what”) urge uma restruturação interna na base do nosso sistema de educação, potenciando a formação para a cidadania, visando a assistência para uma geração de pessoas mais responsáveis, autónomas, solidárias, que dominam e praticam os seus direitos, deveres em diálogo, e no respeito pelos outros. Pessoas com espírito democrático, pluralista, critico e criativo, tendo como referência os valores dos direitos humanos.




Justiça popular

Não consigo deixar de ciladear o espirito existente na máxima incontornável “É mil vezes preferível absolver dez culpados, que condenar um só inocente”.
Deste modo, em situação de condenação, deve a asseveração do julgador ser formada por completo, indubitavelmente, não sendo bastante a mera desconfiança, ou a noção de que tudo tenha corrido de acordo com determinado nexo causal. Não é de todo satisfatório.


Reiteradamente comento que – Oxalá nos livrem da denominada justiça popular (que de justiça pouco tem), ainda que gostemos de ver filmes como ‘1900’, de Bernardo Bertolucci, ou do ‘Nome da Rosa’.


A justiça popular, normalmente anónima e tendenciosa, reacionária e vingativa, ecoa e faz-se apreciar através das várias formas de comunicação disponíveis, tendo por especial objectivo manipular e condicionar as decisões judiciais.
Jamais se deveria anuir que os jornalistas sejam os mais actuantes agentes políticos, cravando pé a uma ingerência a toda a prova, danificando o mais medular do Estado de Direito. Jornalistas, têm uma real e muito nobre missão. A de informar. Actualmente são associações partidárias.


A comunicação social, em geral, vem a fabricar Adamastores aos olhos do povo, afixando muitos desígnios pejorativos sobre ‘a justiça em Portugal’.
São os políticos, comentadores de serviço, e demais agentes que elucidam o povo no sentido económico do que é, ou não vendável.
Certo é que em ‘país de reality shows’, estranho seria reconhecer-se os méritos quase obrigacionais. A cusquice requer tão mais. A comunicação social presenteia. Casamento perfeito.


Essa comunicação decreta julgamentos e sentenças, costumadamente por via televisiva, parcialmente, e com base em entendimentos que nem sequer chegam a ser superficiais. Normalmente provêm de declarações dos ofendidos e dos juízos e latejos de pessoas que por ali também se encontram e nunca serão ouvidas em Audiência de Discussão e Julgamento, porque em bom rigor, nada sabem.

Promessas

Esta cultura de se apresentar uma narrativa embusteira para campanha eleitoral, e um discurso discordante aquando no governo constituído, só promove de um maior descrédito sem precedentes na classe política nacional.
Em momento algum se verificou tamanha desconsideração pelos políticos como hoje.


Infelizmente já nos habituamos sem nos acostumar, ou acostumamos sem nos habituar, a promessas eleitorais e políticos a mentir. Porém, este governo apresentou-nos uma inovação trágica.


Prometer aquilo que não se pode cumprir, tem sido absolutamente reiterado. Agora garantir aquilo que não se vai fazer e no fim fazê-lo, é no mínimo fraude, é uma burla. Uma falta de respeito a milhões de Portugueses.


Sou nada

"Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada".
Nada. Nem nome, nem alma nem esperança. Só um vazio embrulhado em folha arrebatante. Prenda de coisa nenhuma, ausência de rés. Sem peso, forma nem rosto. Sou a incompatibilidade de ser. Um punho aberto, uma despedida na aparição, ou vento que não sopra.
Sou eu. Quem?
Ninguém



Meritocracia

Sempre julguei este como um dos mais perigosos problemas da sociedade actual. A míngua da meritocracia, produz em cascata das mais nefastas consequências deterioradoras de uma comunidade que aprende a injustiça e a revolta. Promove a apatia e principalmente descredibiliza as elites.
Um estado democrático que não reconhece os méritos em detrimento das mais fanáticas ideologias, forçadamente inverte o motor da evolução do país.

CMTV

Faço por não assistir a programação bélica para o intelecto, seja o programa da Teresa onde contracena com um olho azul, as festas onde desdentados ao domingo imitam o Quim Barreiros, ou qualquer conteúdo da CMTV.
Porém, o título da reportagem "Penalista arrasar defesa de Sócrates", fez-me negar aos meus tão nobres e convenientes princípios, usei da fibra óptica e assisti ao canal da exasperação.

Cavaco Silva

Ainda falta mais de um ano para que Cavaco Silva tenha alta do Palácio de Belém, mas mesmo a soro, conseguiu de uma só estopada afastar Rui Rio, Marcelo Rebelo de Sousa, Sampaio da Nóvoa, Marinho e Pinto, Santana Lopes entre outros. (Este último ainda não reparou nisso).

Depois de ouvir as reacções dos intervenientes, afigura-se arguto um Marcelo Rebelo de Sousa como candidato do PS.
É que este esperneou muito mais que os outros!


Barroso, a visita é às 17 horas.

Bengala

A velha e ferrugenta bengala creme parecia moderna à força das rugas que a apertavam, e assim, tentava sondar mais meio palmo de chão que teimava em fintar-lhe o corpo.

De coração em esforço, arquejante como outrora perto assisti, balançava da esquerda à direita, onde os cabelos brancos de tantos anos, ao vento iam acusando os solavancos, arrítmicos a cada passo tentado.

 Estoica de inúmeras viagens sem tempo, foi perjurada sob a calçada declivosa de Lisboa, e então, em plena Avenida Dom. João XXI, a bengala não tateou a pequena falha de pedras porque as cataratas não consentiram, esta soltou-se da mão que a fixava, e lançou-se ao chão abandonando-a e traçando-lhe o mesmo infeliz destino.

Que nem portageiro em fuga terminei-lhe a viagem inevitável, agarrando-a. Senti-lhe a fragilidade no corpo, o pânico nos ossos, a afastamento no olhar.
- Obrigado filho, agora é que lá ia eu.
- Tem de ter cuidado, respondi.
- Obrigado. Sabes, fazes-me lembrar o meu neto.
Silêncio. Sorri.


- Quer lhe telefonar? – Mostrei o telemóvel.
Os olhos bem encetados decaíram ao chão, soltou-se do meu braço individualizando-se, como que a sacudir-se da queda que não deu. Inspirou fundo e contestou sem me fitar.

- Não, ele está a trabalhar. Ele não pode. Está a trabalhar. Obrigado, sim?


Acondicionei o telefone no bolso interior do casaco e disse;
- Ele gosta muito de si.
- Como? – Perguntou admirada.
- Dizia que o seu neto, ele gosta muito de si.


Ergueu novamente os olhos brilhantes de entusiasmo, projectou o sorriso mais genuíno da rua, e interrogou-me;
- Tens a certeza?
- Tenho a certeza. Absoluta.